sexta-feira, dezembro 26, 2014
Curta história de amor
«Não gosto de gajas estrangeiras.» Dizia ele com bastante certeza na voz.
«Só aprecio as portuguesas, com um bom cú! Roliço e redondinho. Excelente para dar umas palmadas. Tás a ver?» Reafirmava ele, balançando a palma da mão aberta, quando lhe perguntavam sobre o seu gosto em mulheres.
Ou, pelo menos, era isso que acreditava até ao dia em que a conheceu. Rosto envergonhado. Aquele cabelo sedoso e brilhante. Os óculos de hastes engraçadas. A camisa branca, cuidadosamente engomada, e a saia preta, pelo joelho, deixavam adivinhar os contornos perfeitos do seu corpo. Tinha o visual de bibliotecária mais impecável que vira até aquele dia. E ele gostava tanto.
Assim que olhou para ela bloqueou. O tempo começou a passar tão devagar, que até a câmara lenta parecia rápida comparada com aquilo. Queria cumprimenta-la, mas só pensava em dizer: Amo-te! Claro que da sua boca nada saiu. Apenas aquele olhar estúpido e estarrecido estampado na cara a olhá-la. A mulher mais bonita que tinha alguma vez visto!
Ela corou.
Quando finalmente conseguiu falar disse: «És linda! Como te chamas?»
Felizmente a situação não exigia grandes formalidades e ele podia tratá-la de forma mais intima, "por tu". Ainda não a conhecia mas já a amava!
«Maria...» Disse ela, com certa timidez, num português arranhado.
Grega! Uma semideusa com certeza! «Deus é um tipo irónico!» Pensou. Mas a paixão não quer saber de nacionalidades. Simplesmente acontece e não se importa com preconceitos. Não era portuguesa... Talvez fosse castigo. Não fazia mal. Amou-a na mesma. Afinal de contas, traseiros cheiinhos existiam em todas as nacionalidades.
Apesar do trabalho que tinham de fazer, foi rápido convence-la para um café. Ela, atraída pela mesma química, aceitou de imediato e até hoje continuam a amar-se. Prolongam aquele momento inicial constantemente, repetindo os cafés tal como se fossem sempre o primeiro. Tal como um ritual de paixão eterna dedicado a Afrodite. Louvada seja!
segunda-feira, dezembro 22, 2014
A escrita
Os escritores são malucos! Talvez seja por isso que não edito um livro, para que não me considerem louco. Ou se calhar, o contrario: os escritores são vaidosos! E eu não queira editar um livro, para não me andar por aí a pavonear, cheio de orgulho nas páginas que escrevi.
A verdade é que faço e sinto coisas, apenas para ter criatividade e vir aqui escrever. Olhem bem para este blog. Às vezes interrogo-me de onde vêm as maluqueiras que escrevo nos textos que publico?
Existem algumas publicações, que sinceramente são básicas. Ah! A escrita até é bonita e tal. Bom de se ler. Mas são apenas palavras que me apeteceram escrever no momento, sem grande conteúdo. Nada mais do que isso…
No entanto, outras vezes, quando do meu íntimo surge uma criatividade quase imoral, dona de uma sabedoria inquietante, nascem textos que parecer vir de um intelecto divino. Como se um outro eu incorporasse em mim mesmo e tomasse conta das teclas do computador. É a sensação que tenho ao revisitar coisas antigas!
Agora que leio isto, aguça-se a minha dúvida e fica a questão no ar: É uma publicação de génio, daquelas básicas, ou outra coisa qualquer? Uma autocrítica, talvez seja a melhor resposta.
Seja como for, vou continuando a cultivar este cantinho escondido na net, feito de palavras que ilustram sentimentos, devaneios, sonhos, loucuras ou simplesmente umas linhas de prazer que me apetece partilhar.
segunda-feira, dezembro 15, 2014
Frases soltas
Gosto de te despir com poesia
Desnudar-te a alma de segredos
Amar com metáforas a pele nua do teu ser
Beijar-te calado num olhar enamorado
Arrepiar-te a pele num toque de desejo
Saborear o pecado do teu corpo
Entrar em ti com uma ternura furiosa
Cantar estrofes a cada gemido que soltas
Até que o poema nasça...
segunda-feira, dezembro 08, 2014
A mudança
– Quem fez as regras? – Perguntei por entre o incerto do meu sonho vívido.
A resposta tardou.
– Deus… – Ouvi alguém sussurrar a medo. Mas aquela voz não vinha de ninguém com a devida autoridade para responder.
– Os homens. – Respondeu mais alguém, também a medo, sem se querer mostrar. A tentar esconder-se naquela espécie de escuridão, que não passava mais do que um vazio, que consistia na ausência de um corpo.
Eram outras consciências, que tal como a minha, ali estavam, meio perdidas. Cientes de que se encontram unidas numa espécie de visão translucida.
Um, mais ousado, certamente erudito, começou a perder a timidez e iniciou uma palestra, ou uma espécie de reflexão, de que as regras foram surgindo com o passar do tempo, num misto de conclusões entre homens, religião, bom senso e a nossa própria natureza.
Os mais religiosos também intervieram, dizendo que apenas Deus as podia ter criado assim, primeiro que os homens, para que estes as respeitassem e vivessem em comunidade.
Mas as religiões são muitas. Abundam e discordam entre si. Tal como as normas ditadas pelos homens, divididas por convicções políticas, ambições ou simplesmente teimosia.
Iniciou-se uma discussão entre intelectos apenas, ignorando onde estavam, quem eram, ou porque se encontravam ali. Apenas confrontavam as suas ideias defendendo aquilo em que acreditavam com total ferocidade, deixando a sensação de que a única e verdadeira regra era a anarquia.
– Pois se as regras foram surgindo ao longo das eras, porque não as podemos mudar hoje? – Questionei, elevando a voz por entre o burburinho.
Um silêncio, carregado de dúvidas, surgiu-me como resposta.
– Porque é que não podemos mudar as regras e com elas construir algo novo? – Continuei. Como se colocasse uma semente de incerteza, completamente nova na mente dos demais, que se tentavam entreolhar por entre o desconhecido que nos envolvia.
– Porque é que não podemos mudar as regras? – Repeti a pergunta.
Aguardei a resposta. No entanto ela não me chegou. Em vez disso surgiu o despertar.
Acordei.
A minha mente pairou na dúvida: Não sei se era sonho ou lembrança…
Rapidamente aquela memória estranha foi-se desvanecendo. Mas não sem antes que eu pudesse anotar o essencial. A questão que coloquei:
– Porque é que não podemos mudar as regras e construir algo completamente novo?
quarta-feira, novembro 26, 2014
Algodão doce
As nuvens ficaram coloridas, abandonando a tonalidade negra e ameaçadora. Tornaram se como arco-íris feitos de algodão doce a pairar sobre a minha cabeça. Como se fossem turistas que passeiam tranquilamente pelos meus pensamentos mais profundos.
É uma curiosa sensação. Como se o céu se transformasse numa paleta e a minha imaginação pintasse cenários abstractos na tela da minha poesia, em versos que fazem questão de não fazerem sentido. Apenas inquietarem-me com um desejo vadio.
As cores são bonitas, quase hipnóticas, mas o frio anuncia que noite vai chegar em breve. Uma certa melancolia vem aconchegar-me o ânimo solitário. Por isso, continuo meu caminho e deixo que as nuvens continuem o seu, à procura de outro destino onde vagar…
quinta-feira, novembro 20, 2014
Novembro
Tenho uma vontade enorme de querer ficar sozinho. Sem barulho à minha volta. Sem interferências. Apenas uma calma serena. Sem nada que me perturbe.
Excluir-me das regras, quase ridículas, que compõem os alicerces da nossa sociedade. Aliviar dessa pressão de normas pré-estabelecidas, que nada mais fazem, senão limitar a minha criatividade e ânsia de ser livre para descobrir o meu caminho.
Ou melhor. Tenho necessidade de ficar apenas eu e o criador, que se recria em mim, com todas as limitações humanas.
Existe uma paz majestosa nesse sossego meditativo. Um conhecimento esotérico que vai nascendo no âmago do meu íntimo. Uma candura que me aconchega. Algo que me transporta para um lugar indizível, onde a matéria não importa.
Sim, eu preciso disso. De ficar esquecido, para mais tarde voltar renovado à minha humanidade…
sexta-feira, novembro 07, 2014
O povo
O gordo soltou um peido. Cheirava tão mal! Parecia que nas suas entranhas existia uma fábrica de podridão, tal era o fedor de imundice que impregnava o ar. Aqueles que o rodeavam, imediatamente se afastaram cheios de nojo, com os vómitos a saltarem-lhes do estômago. Ele abriu um sorriso de orelha a orelha. Estava contente. Pouco se importou com a indelicadeza, ou com o mau estar provocado aos outros. Literalmente cagou-se para eles. Ignorou-os, gozou-os, simplesmente maltratou-os para seu próprio prazer.
O gordo era assim. Não se incomodava com quem se abeirava dele. Primeiro estavam as suas necessidades, vontades, luxos e caprichos. Não fazia mal se alguém desmaiasse diante dele e fosse bater violentamente com a cara na lama. Tanto melhor! Era da maneira que lhe servia de tapete, para não sujar os sapatos caros, de marca, imaculadamente lustrados. As pessoas não serviam para nada mais do que isso. Para alimentar os seus gostos e a sua avareza.
O gordo nunca falha. Por isso mesmo não admite ser criticado. Se por infortúnio acontecer algum erro sob a égide da sua pessoa, a culpa não é dele. Certamente é de algum factor externo, ou, da incompetência de outro qualquer. Nunca dele! Ai de quem tiver a ousadia de lhe apontar o dedo. Esse, desce ao nível mais baixo da educação humana, na rudeza do ataque pessoal e das palavras duras do politicamente incorrecto. Inadmissível!
O gordo contava histórias que faziam rir, sonhar e acreditar, àqueles que não o conheciam, que, saltando das suas cadeiras, lhe batiam palmas com grande entusiasmo. E diziam: “Ora aqui está um tipo porreiro, engraçado, que não tem maldade para connosco”. Mal sabiam eles que estavam muito longe da verdade. E aquele que agora estavam a idolatrar, seria o mesmo que os iria espezinhar. O povo é assim!
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