sexta-feira, agosto 08, 2014

O rei


Sentado no meu trono
Observo toda a gente
Ora atento, ora indiferente
Sempre impavidamente
Vou governando o meu reino

Sentado no meu trono
Vejo rostos distantes
Outros contentes
Alguns até dementes
Vou sentindo o abandono

Sentado no meu trono
Aprecio a solidão
Saboreio a contemplação
Dum momento sem paixão
Vou sendo levado pelo sono

Sentado no meu trono
Deixo o tempo passar
Sem nada a esperar
Apenas constatar
Sei que de nada sou dono

domingo, agosto 03, 2014

O orante


Gostava de criar uma oração que dissesse a Deus tudo que tenho verdadeiramente dentro do meu peito. Todos os desejos que habitam o meu coração. Todas as mágoas, ânsias, agradecimentos e louvores também!
Tenho alguns pedidos muito estranhos, outros simples, mundanos, como os de toda a gente. Mas não me posso esquecer de agradecer, ou realçar como é grandiosa, maravilhosa, indizível, a magnificência de Deus!
Gostava de saber rezar assim. Talvez seja demasiado inteligente para isso, ou demasiado burro. Às vezes acho (tenho a certeza) que a simplicidade e a inocência são o verdadeiro caminho para conhecer Deus. Ainda que não compreendamos o conceito de Deus. Pelo menos é essa a minha opinião. Mas quem sabe se não estou errado? Porque Deus tem uma ironia muito própria e gosta bem de confundir os sábios. Está escrito!
É certo que a inocência é o caminho. “Sejam como estes pequeninos”. Inocentes. Porém, eu não sou assim…
E eu tenho o vício de tentar compreender o conceito de Deus. Embora tudo que tenha sejam apenas teorias, nada mais. Podem ser até muito complexas, mas até chegarem ao conceito de Deus, precisam de uma longa viagem pela frente. Às vezes tenho a sensação de que é pecado tentar descobrir esse conceito. Provavelmente é uma anedota, para que Deus se ria de mim.
Não sei se Deus está jogar uma espécie de xadrez cósmico, onde sou apenas um peão neste universo tao bizarro e incompreensível. Ou se Deus me considera mesmo Seu filho. Ou se sou parte integrante Dele. Sei que Ele está ali, o que quer que Ele seja. Demasiado grande para que eu O consiga definir, porque eu sou demasiado pequeno.
Para nós, Deus tem muitos rostos, muitas religiões, muitas regras… Mas Ele é só um. Nós, humanos, é que gostamos de complicar e dividimos Deus como se Ele fosse divisível. Não! É só um. Demasiado grande. É com ele que eu gostava de falar. Expressar aquilo que vai em mim.
Tudo aquilo que sou!
Todos os átomos que me compõem!
Toda a inteligência e conhecimento que correm no meu intelecto!
Todo a sabedoria que vou adquirindo!
Na realidade, sou apenas mais um ser que está perdido e gostava de se encontrar…

quarta-feira, julho 30, 2014

Basium obliviosus


De repente o infinito terminou!
Juras de amor eterno perderam-se no tempo,
digeridas pelas entranhas do esquecimento,
eternas, apenas no seu momento.
Aquilo que era "para sempre" acabou...

Afinal o "eternamente" não demorou.
A realidade trouxe com ela o que é banal,
a vida temperada com pouco sal,
sabe a pouco aquilo que não é especial,
perdeu-se a magia do que começou...

Quem amou, entregou-se e acreditou.
Mas a entrega não foi longe,
estava mesmo ali o seu auge,
logo após o primeiro pecado herege.
Desejava o inferno mas não o encontrou...

O primeiro beijo uniu e dissipou.
Foi-se deixando esquecer,
o seu sabor de engrandecer,
a sua promessa de florescer,
tão grande, apenas separou...

sábado, julho 26, 2014

O povoado


Gosto de cruzamentos. De ficar parado neles a pensar para onde vou quando rumo sem sentido. Deixo o tempo passar devagar enquanto o automóvel aguarda a minha decisão. Esquerda, direita ou em frente?
Escolha difícil quando não conhecemos o destino e nem temos pressa.
Enquanto não decido deixo a minha mente divagar para lugares longínquos e os meus olhos vão correndo o horizonte.
Ao longe vejo um povoado. Não consigo identificar ao certo a distância, nem o tamanho. Diria que é uma vila pequena, ou média talvez. Podia ir ao Google Earth descobrir que vilarejo é aquele, mas não me apetece. Isso seria estragar um pouco a magia daquilo que estou a observar. Prefiro imaginar como será. 
Interrogo-me: quantos habitantes tem? Quem são eles e o que fazem? Os seus rostos, idades e histórias? Há tanto por onde perguntar acerca de desconhecidos. 
Creio que devem haver por lá três ou quatro pessoas interessantes. Gostava de me sentar com elas à mesa dum café ou esplanada a conversar.
Suponho que lá existam cafés com esplanadas também. Pessoas que se sentam em volta de uma mesa a discutir trivialidades da vida. Futebol, politica, cusquices… Ou então, filosofias mais elaboradas, o meu tema favorito, devo dizer. É um pouco o meu vício, gosto de filosofias elaboradas. Daquelas que surgem numa conversa e de lá não saem. Era isso que gostava de falar com esses três ou quatro. Saber aquilo que eles acham da vida num sentido metafórico.
Talvez um dia vá lá. Hoje não. Tomo nota do local mentalmente para uma hipotética viagem no futuro.
Por agora aproveito este momento a sós com a estrada vazia, com a escolha do cruzamento, comigo mesmo. Ninguém sabe ao certo o que sinto, ou o que quero sentir, ou o que deixo de sentir. Ou o que sou…
Acho que a minha maior diferença é gostar de observar. Passar despercebido sem que me despercebam. Deixar os meus pensamentos escondidos, como uma vida secreta, só para o meu conhecimento, ou de uns poucos que comigo privam de quando em quando.
No entanto a minha atenção continua naquele povoado e nas suas gentes. Podia lá ir. Mas no fundo sei o que ia encontrar. Mudavam os rostos, o cenário, mas as histórias continuavam semelhantes. Seria mais uma terra como as outras, como esta, como a minha, como a tua…

terça-feira, julho 22, 2014

Velle lacrimare


Fiquei com vontade de chorar
Sabia que o fim viria mas não acreditei
Até que aquela música triste começou a tocar
Como uma marcha fúnebre pelo que amei

Fica a memória daquele beijar
A pele macia que acariciei
A felicidade que me fez voar
O peito onde me entreguei

Inebriado por tanto acariciar
O mesmo corpo onde me deitei
No seu conforto me encontrar
Com todo amor que lhe dei

Eu sabia que a dor ia chegar
Fingi com todas as forças que encontrei
Que a felicidade era conseguir amar
Foi assim que me enganei

sábado, julho 19, 2014

A dignidade


O disparo da bala ecoou pela vizinhança. O som da viscosidade dos pedaços de cérebro, crânio, sangue e carne humana, a escorrer pela parede, deram seguimento à fatalidade.
O corpo caiu inerte, sem vida. Ou melhor, sem estímulos eléctricos que lhe dessem novamente movimento.
A arma, pesada, de grande calibre para ter a certeza que a intenção não falhava, acompanhou a queda. Manteve-se, eficaz, na mão do homem. Não havia qualquer beleza, ou dignidade no suicídio. Apenas uma cena grotesca e visceral que iria fazer vomitar o pobre coitado que a fosse encontrar. 
Ou então, talvez apenas alimentar a cusquice e a curiosidade mórbida de quem gosta de comentar este tipo de coisas. O povo é assim…
Mas a morte foi consumada com sucesso. 
No entanto, há que salientar o facto de não ter existido qualquer beleza e muito menos dignidade. Foi apenas morte, desejada.

quinta-feira, julho 17, 2014

O desejo


A noite surgiu
Boca ofereceu 
Beijo teu
Arrepio aconteceu
O desejo abriu

O suor brotou
Luz da lua
Carne tua
Pele nua
O desejo entrou

O gemer fluiu
Amar somente
Tu quente
Fogo ardente
O desejo explodiu

O mundo parou
Abraço intenso
Nosso paraíso
Eterno imenso
O desejo descansou