terça-feira, julho 15, 2014

A sentença


A noite foi surgindo de mansinho anunciando o momento. O caixão abriu e o vampiro acordou. O seu primeiro pensamento foi de desejo, tal como tinha sido o último antes do nascer do sol. A imagem de rosto angelical e traços femininos invadiu-lhe a mente e desejou. Não como um monstro anseia a sua presa, mas como um homem deseja uma mulher. Era assim desde que olhou para ela.
Queria apenas o seu sangue mas tudo que conseguiu sentir foi uma paixão infindável. Como se o seu coração bombeasse novamente calor e o seu cadáver fosse capaz de enfrentar o sol.
Amava…
Mas como pode ele sentir isso? Se já perdeu a sua humanidade há muito tempo. Demasiado para se lembrar de como é ser humano, quanto mais amar.
Então, porque é que ele a deseja?
Será capaz, de no mais fundo abismo negro do seu íntimo, sentir amor?
Sendo assim, será que existe redenção?
Não!
Foi Deus que o amaldiçoou com aquele castigo de amar sem o poder fazer. Que tortura insuportável era aquela. O desejo constante de beijar aqueles lábios quentes com a sua boca fria. Tocar aquele corpo rosado com as suas mãos desprovidas de vida. Para sua agonia apenas podia desejar!
Que saudades de quando era apenas um monstro. De matar! Destruir! Beber o sangue! Rasgar a carne com as suas presas! Desprovido de qualquer tipo de remorsos!
Sem dor. Sem medo. Sem castigo!
Ou pelo menos ele pensava assim. A sua punição não tardou a chegar e, para seu desespero, não podia ter um destino mais cruel. O mais terrível dos juízes sentenciou-o a uma condenação pior do que ao inferno.
Amar…

domingo, julho 13, 2014

Sorrisos que encobrem penúria


Sou um sacana gótico 

Tenho um certo fascínio pela melancolia
Acho que os abismos estão cheios de magia
Encontro neles um certo sentido poético 

Há coisas que só podem ser descritas com poesia
Escrita pela madrugada até o nascer do dia
Num transe bizarro onde mergulho como um fanático

Creio numa religião que faz do sono uma heresia
Ou numa ideologia grotesca que abomina a calmaria
Nela viajo por rimas entre o obscuro e o dramático 

Apraz-me caçar sorrisos que encobrem a penúria 
Ser um saqueador a navegar abismos sem alegria
Encontrar num coração triste um tesouro excêntrico

Riquezas escondidas em vontades tomadas pela inercia 
Porque toda a gente reconhece na vida a miséria 
E secretamente não resisto um final apoteótico 

quinta-feira, julho 10, 2014

Entre as várias esquinas


A velha saiu de casa num passo apressado. Um caminhar bem mais acelerado que a sua idade, com certeza bastante avançada, devia permitir.
Um lenço negro cobria-lhe a cabeça, usava-o talvez por tradição, ou talvez numa tentativa inútil de esconder as rugas carregadas que lhe adornavam o rosto (ou deformavam). Quem sabe qual seria o seu ideal de beleza? Certamente fora criada num tempo (já esquecido) em que a beldade importava pouco, em detrimento da robustez física. Assim parecia ser.
De resto, umas vestes negras, já gastas pelo tempo a julgar pelos remendos, cobriam-lhe as costas vergadas pelo peso dos anos. Pela aparência só poderíamos imaginar o seu corpo decrepito e deformado pela velhice.
Irrompeu pelas ruas da cidade decidida, sem medo. Como um espectro de outros tempos, avançava determinada entre rostos, prédios, veículos e o caos da modernidade. Parecia saber onde queria ir, ou quem sabe a demência dava-lhe essa ilusão.
Muitos eram os que a olhavam. Alguns faziam-no com repulsa perante aquela figura grotesca e sinistra que se desfasava da multidão.
Outros viravam os olhos para o outro lado. Alguém assim não tinha lugar na urbe, onde reina a perfeição, por isso ignoravam e seguiam o seu caminho, esquecendo as fracções de segundo em que se cruzaram com tal personagem.
Alguns, no entanto, dotados de gentileza (felizmente esta ainda existe), perguntavam à estranha senhora idosa se necessitava de ajuda. Mas ela, por orgulho, vergonha, ou outro desígnio qualquer, baixava a cabeça e não respondia. Continuava a sua caminhada cabisbaixa e silenciosa.
Um menino, quase adolescente, dava chutos numa bola, imaginando na sua cabeça que era um jogador de futebol famoso, aplaudido pelo mundo. O seu devaneio foi interrompido pelos passos apressados daquele vulto coberto de negro.
Lembrou-se que os seus pais contavam que antes de viverem na cidade, haviam crescido numa aldeia perdida nos montes, já esquecida no tempo. Diziam que os jovens fugiram todos da existência áspera do campo, em busca de conforto e para trás só ficaram os velhos que nada mais sabiam da vida, a não ser a rotina do deitar cedo e cedo erguer e para si não desejavam mais nada. Por isso ficaram, remetidos ao abandono. Comentavam que as rugas dessa gente eram mais fundas, ríspidas e assustadoras.
Com essa imagem na cabeça e curioso por alguém assim com uma aparência tão deslocada palmilhar aquelas ruas agitadas, decidiu segui-la. Reparou que no seu regaço segurava afincadamente uma trouxa de pano. “Que seria que levava lá dentro”? Inquiriu a criança que manteve sorrateiramente a perseguição à senhora que teimava em não abrandar.
Com uma agilidade quase sobrenatural para um ser humano (quanto mais uma idosa) e um ritmo alucinante, ela esgueirava-se entre a multidão com extrema facilidade, o que dificultava bastante a tarefa do menino. Mas ele não desistia e manteve-se no seu encalço. Por vezes tinha de saltar entre as pessoas para tentar avistar onde estava aquele lenço negro. Tarefa que se mostrava cada vez mais difícil.
Não tardou a que a perdesse de vista entre as várias esquinas. Ainda correu de um lado ara o outro para lhe tentar encontrar o rasto sem sucesso. Aquela estranha figura coberta de negro, tal como um fantasma, dissipou-se entre o mar de rostos que iam e vinham ao som da hora de ponta.
Resignado por não ter descoberto o destino daquela velhota de rosto encorrilhado, segurou a sua bola e regressou à sua fantasia de jogador de futebol. Mais tarde, ao jantar, iria contar aos pais aquela pequena aventura. Quem sabe se eles conheciam o segredo daquela velha senhora…

sábado, julho 05, 2014

Quantos idiomas existem no mundo?


Conheces a minha mente, gostas de entrar lá dentro e ver o que consegues encontrar. Sabes que existe algo em mim que se deixa cativar por ti. 
Talvez seja por isso que me deixas doido com o simples facto de seres tu, selvagem, libertina, imprevisível com as tuas extravagâncias.
Fazes-me prostrar de joelhos, diante ti. Eu, o mais livre dos homens. Fazes-me rir, fazes-me chorar. Fazes-me pensar em ti o tempo todo (ou demasiado tempo para o meu gosto).
Eu questiono-me o porquê de me ir embora, acabando sempre por voltar para ti, obcecado pelos teus olhos de feiticeira! A pensar nas nossas madrugadas e nos nossos nasceres do sol.
Porque é que me deixas doido? Sim eu sou doido! Mas não é altura para pensar nisso porque tenho outra coisa mente:

Je veux faire l'amour avec toi!

Digo em francês porque me parece uma boa língua para fazer amor.
Depois vou embora, não quero estar mais contigo.

Dito isto volto.
Quando parece que já não te desejo consegues arranjar uma maneira de rastejar de volta para dentro da minha mente. Sou raptado pela tua voz fresca como uma brisa de verão. Simplesmente não resisto e apesar das milhares de razões que tenho para partir, acabo sempre por regressar. O meu abandono é momentâneo. Apenas uma intenção rapidamente esquecida.
Talvez queira saber qual vai ser a teu próximo desvairo. Talvez esteja verdadeiramente hipnotizado por ti. Talvez esteja viciado no teu corpo e queira prova-lo novamente até que atinjas o êxtase. E como ficas bela quando te desfazes em prazer!
Preciso de ti e quero-te apesar deste dilema de ir e vir. Sim eu sou doido! Mas não é altura para pensar nisso porque tenho outra coisa mente:

Quiero follarte salvajemente contra la pared hasta hacerte llorar de plácer!

Digo em espanhol porque me parece uma boa língua para fornicar à bruta.
Depois vou embora, para certamente voltar.
Quantos idiomas existem no mundo? Aposto que os conseguimos foder a todos e até inventar mais uns quantos entre estes ciclos tresloucados de ir, vir e amar sem querer (ou querer muito)…

segunda-feira, junho 30, 2014

O hino


Adormeci
O cansaço embalou-me e o sono arrebatou-me para as suas profundezas.

Perdi
O tempo, sem que eu desse conta da sua passagem, deu um salto. Foi como se esse intervalo nunca tivesse existido.

Esqueci
Talvez tenha sonhado. Mas se assim foi não me recordo. O que é pena, pois mesmo na sua bizarra ilusão, os sonhos dar-me-iam algo para contar.

Acordei
Um som mais forte reavivou-me. Os ponteiros do relógio confirmaram que me havia deixado ir com a sonolência.

Despertei
A vida chamou-me de volta. As horas apagadas trouxeram-me algum repouso. Não o suficiente, suponho. A inquietude ainda corria nas minhas veias.

Voltei
Ignorei o conforto do corpo adormecido e escutei, algures, as vozes que me chamavam. Levantei-me ao encontro delas para me lembrar de quem sou.

A vida pede-me que entoe o seu hino.
E fui.

sábado, junho 28, 2014

Para quem ama as emoções


Para por um momento.
Vem conversar um pouco comigo.
Já reparaste na beleza que nos rodeia? Sim, eu sei que parece um cliché, mas observa com atenção.
Está cair a noite, o céu está limpo, não tarda aparecem as estrelas! Olha, lá está a primeira. Vê como o seu brilho é forte. Não tem medo de se afirmar como a mais cintilante de todas.
O sol já se escondeu por completo e trouxe consigo a fresquidão. Sabe bem depois de um dia quente. Um manto negro já foi estendido sobre as nossas cabeças para servir de palco ao espectáculo do firmamento.
Mais estrelas estão a chegar, tímidas, mas lá vão rompendo a escuridão para nos maravilhar. Para não falar na lua. Contempla como se impõe-se grandiosa, tal como uma rainha lá no alto a sorrir para nós.
Foda-se! É lindo!
Diz lá se tudo isto não te faz sonhar?
A rotina do dia-a-dia faz-nos cair no marasmo. Na apatia. Esquecemo-nos de contemplar este cosmos admirável que nos rodeia. Tentamos enganarmo-nos com um pouco de amor aqui, um pouco de aventura ali, um pouco de prazer acolá… Mas a verdade é que nos deixamos ir com a sonolência imposta pelo cansaço que a sociedade determina. Às vezes acho que querem castrar a beleza e a arte que acompanha a natureza.
Recuso-me a fazer isso! Não deixo!
Quero escrever poemas que emocionam, pintar quadros cheios de vida, criar músicas que façam dançar e chorar com o vibrar dos sentimentos.
Sabes, os cientistas dizem, com as suas equações matemáticas, que tudo já está predestinado. Vou-te contar um segredo: Não acredito em nada disso. Quero que esses estudiosos metam essas teorias pela goela abaixo e se calem!
Deixem sonhar quem ama as emoções.
Prefiro viver livre de amarras, de conceitos pré-definidos de como devem ser as coisas. Como deve de ser a nossa existência.
Não! Eu quero o mundo com tudo que ele tem para dar. Não quero apenas meras amostras de felicidade. Quero tudo como deve de ser!
Escuta um conselho, devíamos parar mais vezes, como seres finitos que somos e apreciar toda esta grandiosidade, porque temos à nossa disposição o próprio universo a se revelar para nós e só nos importamos com o efémero…

sexta-feira, junho 13, 2014

Onde moram os poetas


No mundo poético eu sou fumador, aqui não existem doenças que apodrecem os pulmões e entopem o coração. E se existirem são belas, ou melancólicas, tanto faz. Tudo é poesia! Nas suas palavras apenas existe encanto…
No mundo poético eu puxo o fumo do cigarro, travo e durante segundos infinitos deixo o meu pensamento vadio, algures… Finalmente, ao expelir, modelo formas de beleza abstracta, tal como um escultor de desejos…
No mundo poético eu sou um rei, um boémio, um pecador, (quiçá um santo redimido),um obsceno! Ou simplesmente ninguém, quem sabe? Talvez seja apenas eu a dizer tolices, ou talvez a inquietação que habita em mim…
No mundo poético eu sou criador de universos. Aqui não há limites para o que se possa criar. O único limite é ultrapassar os limites! Aqui, eu sou rival de todas as divindades da criação, ou pelo menos tenho essa ilusão. Ou tudo é ilusão! Quem sabe?
No mundo poético eu sou um vampiro que chupa o sangue de virgens inocentes. Em imagens românticas procuro o amor verdadeiro, atrás de esquinas sombrias entre palavras ousadas e reticencias caladas de sentimentos Inefáveis…
No mundo poético perco-me a escrevinhar fantasias inebriadas. Minhas, dos outros, ou de ninguém. Sigo sem ter um sentido. Vou enganado por achar que estou no controlo quando, na realidade, sou apenas um instrumento de uma consciência maior. A poesia é que manda…