sexta-feira, fevereiro 07, 2014
Carta de amor
Escrever uma carta de amor…
Sabes que não acredito em expressar um sentimento tão grande por palavras. Palavras são apenas isso: palavras. Escritas de forma mecânica.
Como é que alguém pode expressar amor assim?
«Os poetas conseguem fazê-lo» dizem alguns. Que se danem os poetas! São mentirosos! Piratas emocionais em busca de sentimentos para a sua colecção. Vivem da sua loucura e do seu vício por rimas caóticas. Que se danem mil vezes!
Quando se trata de amor não acredito nas palavras…
Acredito no toque, meigo; no olhar, profundo; no beijo, eterno; na telepatia, tão mágica!
Acredito nos corpos que se unem e arrastam atrás de si almas ansiando serem um só!
O amor é isso. Dois que se tornam um. Um universo só nosso. De mais ninguém! Sem tempo nem regras. Onde somos réis, imperadores, deuses! Onde nos anulamos e recriamos em cada gemido, em cada suspiro, em cada êxtase que só é possível acontecer porque nos amamos…
Sim amo-te acima de tudo.
Quero dizer-te isso, com a boca, a mordiscar a tua pele; com as mãos a percorrer o teu corpo arrepiado; com a alma a viajar dentro de ti...
sábado, fevereiro 01, 2014
O cansaço
A dormência
Olhos fechados
Cansados
Pesados
Sem consciência
Querer dormir
Sonhar
Parar
Descansar
Simples inexistir
Na noite escura
Entrega
Apaga
Aconchega
Na sua ternura
Sem sofrer
Quieto
Secreto
Obsoleto
Apenas esquecer
Render à apatia
Amena
Terna
Serena
A manhã traz alegria
sexta-feira, janeiro 17, 2014
A palavra
De vez em quando a palavra amarga visita-me.
Entra em minha casa sem pedir autorização.
Senta-se no sofá e vai chamando o meu nome.
Insiste até que, esgotado, lhe vá dar atenção.
Solta sobre mim um cansaço pesado e enorme.
Tira-me a vontade de sentir a doçura da emoção
Incentiva-me com o marasmo de quem dorme,
Rasgando a força que irrompe do meu coração…
sábado, janeiro 11, 2014
Mistérios
Sou uma pirâmide.
Construíram-me com blocos enormes de rocha, que pesam várias toneladas, encaixando uns nos outros com perícia. Trouxeram mais e mais, cada vez mais e fui crescendo. Imponente. Indestrutível. Resistente ao passar das eras na minha grandiosidade.
Os arquitectos que me conceberam, iluminados pelos deuses, ordenaram-me com os pontos cardiais. Uma face a norte, outra a sul, outra a este, outra a oeste. Alinharam-me também com as estrelas para que a minha imponência se junte ao cosmos.
Não sou um simples edifício. Estou colocado estrategicamente num ponto místico para que fique em comunhão com as energias ocultas do campo magnético deste planeta. Sou como uma antena para a sabedoria que se esconde no universo.
Os povos que me construíram dançam, rezam e celebram à minha volta, partilhando toda a minha magnificência e mistérios. Estão felizes porque estão orgulhosos do seu feito. Eu estou sereno porque estou em harmonia com os enigmas deste mundo.
quarta-feira, janeiro 01, 2014
Sou
Sou a carta improvável que traz a vitória numa estatística impossível
Sou as palavras mágicas que entram no teu doce coração fantasioso
Sou os sonhos que habitam o teu acordar e encantam o teu adormecer
Sou o impossível conquistado pela inocência de acreditar em magia
Sou um rei poderoso num mundo invisível aos olhos de quem não crê
Sou um peregrino em busca de sabedoria entre mitos e coisas banais
Que o Divino nunca me faça esquecer quem sou
quinta-feira, dezembro 26, 2013
Apenas um sorriso
O vampiro estava escondido a observar o palacete. Decorria uma festa no salão de baixo. Havia comida, dança, sorrisos e conversas entusiasmadas.
Os convidados chegavam em luxuosos automóveis. As mulheres, com corpos esculturais, exibiam vestidos luxuosos, cabelos artisticamente penteados e jóias brilhantes. Mesmo ao longe conseguia sentir o perfume delas como se fosse um convite. Os homens, esses, ostentavam fatos elegantes, devidamente aprumados, mostrando uma postura confiante típica de quem é bafejado pela riqueza.
Contemplava o que se passava lá dentro. Principalmente a forma jovial como dançavam ao som de uma pequena orquestra. Os passos bem treinados, os rodopios e principalmente a alegria que os pares sentiam, fizeram com que o vampiro desejasse estar lá dentro. Imaginou-se numa valsa a conduzir uma jovem de grande beleza e a ser o centro das atenções.
Naquela noite não queria sangue. Desejava apenas um sorriso. Um singelo sorriso que fosse verdadeiro. Era apenas isso que ansiava. Somente um sorriso.
Podia tentar entrar mas assim que os seguranças o avistassem iriam, certamente, confundi-lo com um velho mendigo, senil e sem-abrigo. Aquela gente não suporta pedintes. Seria escorraçado como um cão sarnento. Ou pior. Ninguém ia acreditar se dissesse que apenas desejava um sorriso.
Isto é. A menos que uma alma malfada o olhasse nos olhos e visse as trevas que se escondem no seu íntimo. Sentiria um terror absoluto. Até o mais forte dos homens treme perante a imagem de um monstro assim. Mesmo assim iriam atacá-lo. Teria de ser violento. Podia vir um, dois, três, dez, vinte, cem, duzentos, mil… Tanto faz. Todos iriam morrer pelas suas mãos. Tinha sido amaldiçoado pelo diabo (ou algo pior) e a sua sina era matar.
O vampiro manteve-se escondido a observar a festa. Naquela noite não queria sangue. Desejava apenas um sorriso. Um simples vislumbre de carinho por mais insignificante que fosse. Seria pedir demais?
Naquela noite tudo que o vampiro queria era um pouco de amor que lhe aliviasse o fardo, imensamente pesado, da solidão. Naquela noite o vampiro não queria matar, mas como em tantas outras, teria de cometer uma atrocidade e verter sangue inocente…
sexta-feira, dezembro 20, 2013
Paralelismos
I
Olhou para cima e reparou nas longas escadas que levavam ao cimo do prédio.
A escadaria que levava ao último andar era comprida e com toda a certeza cansativa.
II
Colocou o pé no degrau e deu o primeiro passo de muitos daquela longa subida
Respirou fundo, engoliu em seco e começou a subir lentamente degrau atrás degrau.
III
Seguia devagar enquanto procurava limpar a mente de qualquer tipo de pensamentos.
Sentia um turbilhão de emoções, não sabia o que esperar, a ansiedade tomava conta de si.
IV
No fim da demorada subida sentiu um medo gélido a acompanhar a respiração ofegante.
Caminhou lentamente até ao topo mas isso não impediu que acusasse o cansaço.
V
À sua frente estava a porta do apartamento sem saber o que o esperava lá dentro.
Olhou para a porta do apartamento e tremeu. O que estava lá dentro era uma incógnita.
VI
Levou a mão ao bolso e tirou a chave que guardava esperando nunca ter de utilizar.
Abriu a bolsa e procurou a chave. Não podia hesitar por isso meteu-a na fechadura.
VII
Rodou a fechadura e a porta abriu soltando um ranger que acusava falta de uso.
O ranger fantasmagórico que se ouviu quando empurrou a porta fê-la estremecer.
VIII
Lá dentro, por entre a obscuridade, distinguiu um vulto feminino caído no chão.
Um corpo masculino que jazia no chão distinguia-se na sala pouco iluminada.
IX
O seu coração parou perante o cenário e uma lágrima começou a escorrer-lhe pela face.
O seu coração disparou perante o cenário e um sorriso aberto pintou-se no rosto.
X
Baixou-se acariciando o rosto da mulher que parecia dormir, beijando-lhe os lábios frios.
Baixou-se e levou os dedos à testa do homem sentindo o buraco da bala que o matara.
XI
Depois pegou-lhe na mão delicadamente e tirou-lhe um anel que parecia ter luz própria.
Depois, do pescoço do cadáver arrancou um fio de ouro. Enfim tinha sido feita justiça.
XII
Saiu de seguida fechando a porta atrás de si na esperança de esquecer aquele lugar.
Saiu de seguida fechando a porta atrás de si, finalmente podia sentir verdadeira paz.
Gostava de ver alguém construir a sua versão...
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