sábado, novembro 09, 2013

PORTAS DA FANTASIA


A chuva que caia lá fora fez com que se recolhesse ao conforto dos seus aposentos. Sentado na poltrona deixou-se tomar pelo calor que provinha da sala. As suas pálpebras começaram a cair. O corpo foi ficando relaxado e o sono não tardou em chegar.
Foi assim que entrou de mansinho no mundo dos sonhos. Atravessou as portas da fantasia pairando no seu voo pelo imprevisível. Conhecia bem aquela sensação em que a voz de Morpheus o atraía, ao mesmo tempo que lhe sussurrava segredos encantados sobre o universo.
Aquele era o seu verdadeiro refúgio. Nas profundezas do adormecer, nos mistérios da sua própria mente embalada por magia. Perdido algures por entre os mundos infinitos que se escondem no seu sono ele encontra-se a ele mesmo. Já não é um simples individuo. Torna-se num ser encantado sem limites nem fronteiras, sem tempo ou medos, onde tudo se transforma em descoberta.
Então chegou o acordar. Os seus olhos abriram-se trazendo-o de volta ao nosso mundo. Um breve momento de confusão prendeu-o entre as duas realidades. Queria ficar onde estava, entre os sonhos, mas não teve outra opção senão despertar. Tinha de ser. Tinha a certeza que em breve ia voltar. Aliás, aquele seria sempre o seu refúgio, para onde voltaria vezes sem conta sem que os outros o soubessem. 
No entanto, por agora era altura de acordar. Sabia que tinha em si conhecimentos que o engrandeciam e uma vontade indomável de viver…


sábado, novembro 02, 2013

MUITAS PERGUNTAS


– Acredito no dia de hoje. – Respondi.
– Viver como se não houvesse amanhã? – Perguntou.
– Nada disso. Pelo contrário. Viver todos os dias de forma a plantar um amanhã melhor. Preenchido com histórias, aventuras, sabedoria, magia… Livre das amarras da banalidade.
Riu-se. – Parece palavreado de um livro de auto-ajuda.
– Agora que falas nisso, suponho que sim. – Ri-me também. – Mas não me importo, é nisso que acredito.
– Acreditas em magia? – Perguntou. Os seus olhos adquiriram um brilho cristalino. Típico de quem fica empolgado perante uma aventura.
– Estás a fazer muitas perguntas hoje. – Disse em tom de gozo.
– E tu não respondeste. Acreditas ou não?
– Sim. Acredito. – Respondi desviando o rosto na direcção do céu e observei as nuvens primaveris. A sua beleza parecia saída de uma pintura.
Creio que percebeu que respondi de forma evasiva. Talvez devido a isso esperou um pouco antes de voltar a falar. Possivelmente para avaliar o que ia dizer a seguir. Sabia que não me devia pressionar. Detesto isso. Deu mais um gole na bebida e chegou-se ao pé de mim sussurrando, como se contasse um segredo:
– Sabes, às vezes acho que és um ser mágico…
Respondi-lhe com um sorriso. Creio que compreendeu o meu silêncio. Os seus olhos brilharam ainda mais e as suas bochechas adquiriram um tom avermelhado. Levou novamente o copo à boca numa tentativa vã de esconder o rosto. Corou. Mas não foi de vergonha. Acho que foi de orgulho de ter tido a coragem de me dizer aquilo.
Senti que devia dar-lhe uma recompensa pela sua audácia. Por isso disse-lhe:
– Todos somos mágicos. A maior parte de nós não sabe, nem acredita nisso, mas é verdade. Todos temos magia. Basta perder algum tempo a procurar por ela…
– E como podemos procurar por ela? – Aparentemente as minhas palavras soaram-lhe a frases feitas e pareceu sentir algum desapontamento.
– Essa é a pergunta que todos fazem. – Respondi, fugindo um pouco ao assunto.
 É a pergunta que tem mais lógica. Como podemos encontrar a magia que há em nós?
Reparei no seu rosto curioso e senti uma divisão em mim. A resposta é tão simples que a maior parte das pessoas acha-a ridícula e pura e simplesmente não acredita. Fiquei a ponderar se lhe dizia ou não…


sábado, outubro 26, 2013

BRUTO


Fúria maldita! A raiva toma conta de mim como um fogo que me assoma e tenho inveja de quem sente tranquilidade. Hoje tudo em mim é ódio! Tanta gente no mundo, tantos dramas com eles… Posso ser apenas mais um e se calhar no meio de todos sou apenas ninguém, mas permitam-me ser egoísta: sinto-me, irado, raivoso, violento, bruto e monstruoso! Exijo justiça sem remorsos, sem perdão… Não aceito desculpas por parte de quem me ofende! Quero que padeçam! Simplesmente isso!
Quanto a mim, apenas desejo voltar para a serenidade…


sábado, outubro 19, 2013

SIMPLES AVENTUREIRO


O mundo está cheio de pequenas histórias. Cada um de nós vive centenas por dia, quase sem nos apercebermos. Aventuras simples que rapidamente passam ao esquecimento. Pessoas que se cruzam connosco e se juntam a nós para um mero acontecimento. Desde um simples "olá", a um trocar de olhares; uma conversa sobre o tempo ou um mostrar de indignação sobre a crise; um café relaxado logo a seguir ao almoço na pausa do trabalho, ou um gesto de entreajuda num momento de necessidade; enfim, um infinito de situações impossíveis de enumerar a todas.
Depois de analisar isto chego à conclusão que tenho a vida preenchida por "pequenos nadas" sem o perceber na maior parte do tempo. Sou um aventureiro do dia-a-dia. Protagonista de modestos acontecimentos sem ter a emoção para os notar.


sábado, outubro 12, 2013

COMPARANDO INFERNOS‏


O meu inferno é gélido. Insensível, dormente e sem emoções. Toma-me o corpo e a alma, arrastando-me para uma solidão devastadora onde os sentimentos são uma miragem.
O meu inferno é um palco onde enceno os guiões da personagem em que me tornei. Nele existe uma balança que pesa as acções de quem contracena comigo, às quais respondo como justiceiro, amante ou mero observador.
O meu inferno é um paraíso onde o bem e o mal não existem. Um lugar onde os outros me tocam mas eu não os sinto. Limito-me a retribuir aquilo que recebo. Sejam olhares, carinhos, dores ou vinganças.
O meu inferno é um abismo em que o fim é o desconhecido. Nele consigo voar com as asas da fantasia e esqueço que o medo existe. Conheço mundos, pessoas e histórias que rumam ao mesmo destino que eu.
O meu inferno é meu, apenas meu. Diferente do teu, diferente dos outros, pois nenhum inferno é igual. Cada um é único tal como cada coração, ora amargo, ora doce, ora feio, ora belo, ora cheio de sonhos, ora vazio e sem interesse.


sábado, outubro 05, 2013

INFINITAMENTE PEQUENO


Sentei-me no topo do mundo e observei a humanidade.
Tudo parecia infimamente pequeno. De uma insignificância total, diria mesmo ridícula.
O tempo acelerou e as eras foram passando cada vez mais rápido. Assisti a guerras que se transformaram em amizades, que mais tarde se tornaram novamente em quezílias.
Vi gentes a crescer, viver e morrer. Assim como impérios, reinos, religiões e ideias. Tudo o tempo trouxe, tudo o tempo levou, tudo o universo esqueceu.
Reparei que os acontecimentos surgiam em ciclos que iam e vinham. Os intervenientes eram sempre diferentes, os locais também, mas as ocorrências eram iguais.
Naquele sítio entre o sonho e a realidade apercebi-me que também eu fazia parte daquele espectáculo sem objectivos. As coisas iam e vinham sem nunca prevalecer. Cheguei à conclusão de que eu era igualmente nada no meio daquele emaranhado de existências sem importância, se comparadas com a imensidão do infinito.
Parecia um destino triste. No entanto eu sou dono das minhas ilusões e essas ninguém mas pode tirar. Por mais inúteis que possam parecer aos outros, para mim são o meu tesouro…


sábado, setembro 14, 2013

POR ENTRE A TEMPESTADE


O Deus do Trovão surgiu nos céus, entre as nuvens carregadas, fadado com todos os nomes que os povos e os tempos lhe deram. Trouxe consigo o medo que a sua presença anuncia, crivando de terror a coragem dos heróis e enchendo de suplicas a boca dos humildes.
A sua figura austera olhou para o mundo com um semblante indecifrável entre a melancolia e a raiva. Sem hesitar, elevou a sua mão e por entre o negrume chamou a tempestade. Então, no meio da obscuridade que se formou, nasceu um relâmpago que rasgou a as trevas com a sua luz tenebrosa.
A terra estremeceu ante o poder daquele raio implacável e do seu som aterrador. Lágrimas jorraram dos olhos das crianças e os corações dos adultos dispararam no seu bater acelerado. Era o pânico a ganhar vida.
Mas a intempérie não se calou. Os céus assombrados eram trespassados cada vez mais e mais pelos trovões impiedosos que ribombavam sem misericórdia, clemência ou compaixão. O terror, o pranto e o desespero faziam-se ouvir no pavor dos humanos assustados.
O Deus do Trovão observou a sua obra no seu voo sublime. Quando o medo no mundo alimentou a sua ânsia ele baixou a sua mão, chamando de volta o sol, que foi regressando submisso por entre a tempestade que se acalmava. 
Depois de demonstrar o seu poder, foi embora. Tinha lembrado que a natureza é mais forte e as pessoas meros seres piedosos por um pouco de felicidade…