sábado, outubro 05, 2013

INFINITAMENTE PEQUENO


Sentei-me no topo do mundo e observei a humanidade.
Tudo parecia infimamente pequeno. De uma insignificância total, diria mesmo ridícula.
O tempo acelerou e as eras foram passando cada vez mais rápido. Assisti a guerras que se transformaram em amizades, que mais tarde se tornaram novamente em quezílias.
Vi gentes a crescer, viver e morrer. Assim como impérios, reinos, religiões e ideias. Tudo o tempo trouxe, tudo o tempo levou, tudo o universo esqueceu.
Reparei que os acontecimentos surgiam em ciclos que iam e vinham. Os intervenientes eram sempre diferentes, os locais também, mas as ocorrências eram iguais.
Naquele sítio entre o sonho e a realidade apercebi-me que também eu fazia parte daquele espectáculo sem objectivos. As coisas iam e vinham sem nunca prevalecer. Cheguei à conclusão de que eu era igualmente nada no meio daquele emaranhado de existências sem importância, se comparadas com a imensidão do infinito.
Parecia um destino triste. No entanto eu sou dono das minhas ilusões e essas ninguém mas pode tirar. Por mais inúteis que possam parecer aos outros, para mim são o meu tesouro…


sábado, setembro 14, 2013

POR ENTRE A TEMPESTADE


O Deus do Trovão surgiu nos céus, entre as nuvens carregadas, fadado com todos os nomes que os povos e os tempos lhe deram. Trouxe consigo o medo que a sua presença anuncia, crivando de terror a coragem dos heróis e enchendo de suplicas a boca dos humildes.
A sua figura austera olhou para o mundo com um semblante indecifrável entre a melancolia e a raiva. Sem hesitar, elevou a sua mão e por entre o negrume chamou a tempestade. Então, no meio da obscuridade que se formou, nasceu um relâmpago que rasgou a as trevas com a sua luz tenebrosa.
A terra estremeceu ante o poder daquele raio implacável e do seu som aterrador. Lágrimas jorraram dos olhos das crianças e os corações dos adultos dispararam no seu bater acelerado. Era o pânico a ganhar vida.
Mas a intempérie não se calou. Os céus assombrados eram trespassados cada vez mais e mais pelos trovões impiedosos que ribombavam sem misericórdia, clemência ou compaixão. O terror, o pranto e o desespero faziam-se ouvir no pavor dos humanos assustados.
O Deus do Trovão observou a sua obra no seu voo sublime. Quando o medo no mundo alimentou a sua ânsia ele baixou a sua mão, chamando de volta o sol, que foi regressando submisso por entre a tempestade que se acalmava. 
Depois de demonstrar o seu poder, foi embora. Tinha lembrado que a natureza é mais forte e as pessoas meros seres piedosos por um pouco de felicidade…


sábado, setembro 07, 2013

REFLEXO


Os espelhos estão em todo o lado mas não reflectem a minha imagem. Quando os olho, não é a minha figura que olha de volta para mim. No seu reflexo fico transparente, dissolvido, inexistente! 
Aparecem em várias formas, vários feitios ou mesmo em materiais improváveis. Por vezes surgem sob a forma de som, outras como um sussurro trazido pela brisa, outras como uma certeza que inunda a minha intuição. 
São como retrovisores que mostram o que está por trás de mim. Onde está apenas vossa vida que vou observando quando pensam que não estou a ver.
Quando estou de costas vocês julgam-me ignorante, inocente, sem interesse. Mas desconhecem que eu estou a observar no silêncio da minha quietude. Sei os vossos segredos mais negros. Conheço as vossas manhas ludibriantes. Sinto o vosso cheiro a podre a entranhar-se no vosso olhar…
Não me pronuncio sobre isso, mantenho-me calado alimentando a vossa certeza sobre a minha ignorância. Oh… como estais errados. Sei tudo aquilo que cultivam no oculto. Os espelhos contam-me tudo em pormenores sórdidos e grotescos.
O meu silêncio protege-me da vossa malícia. Escondo-me na minha suposta inocência e guardo as vossas misérias para um momento oportuno. Até porque a vossa vida não é assim tão interessante, embora tenham essa ilusão. São meras existências banais, insípidas e sem conteúdo, que se entregam ao pecado como qualquer outro humano. (Eu não sou excepção).
Portanto mantenham as vossas rotinas vulgares. As vossas mentiras mundanas. Mesmo que de forma inebriada achem que vivem acima dos demais. Lembrem-se apenas:
Eu sei…

sábado, agosto 31, 2013

QUARTA DIMENSÃO‏


Algures num adormecer, olhei para dentro de mim e encarei o caos da minha insignificância humana. Mergulhei para dentro do transe em busca do infinito que há em mim, para alem do meu corpo, do meu íntimo, do meu tempo… Na direcção da essência do meu eu, em busca da fonte onde o próprio universo nasce, para além de qualquer conhecimento.
Nessa procura íntima, em que a minha mente seguia num voo imaterial que era um misto de sonho, profecia e imaginação etérea deixei-me perder algures entre a sonolência e o pensamento. Até que subitamente fui atingido por uma energia desconhecida que me fez despertar de forma instantânea. No entanto, ao voltar à realidade algo estava diferente: foi como se dois mundos coexistissem num só.
Vi-os a convergir, como duas imagens que se sobrepõem, transformando-se apenas numa. A nossa existência em simbiose com outra, numa comunhão assustadora.
Edifícios de arquitectura estranha elevavam-se entre os nossos desafiando as leis da física. Seres de aspecto bizarro, no entanto belo, passeavam-se entre nós. Eram parecidos connosco, era como se a nossa raça tivesse evoluído em várias espécies diferentes e eles fossem o resultado. 
Para aquelas gentes, a ciência era avançada e confundia-se com magia. Fiquei muitas vezes na dúvida se era uma coisa ou outra. Não era algo que parecia saído de um filme de ficção científica, mas de uma evolução natural que aquela civilização tinha sofrido.
Os seres olhavam-nos e conduziam a sua vida normalmente, cientes da nossa presença. Aparentemente sem se importarem, como se fizéssemos parte do seu dia-a-dia. Mas nós não os víamos, nem tínhamos consciência de que eles estavam lá.  Circulávamos na ignorância de que todo aquele mundo nos rodeava, se fundia com o nosso e fazia parte do universo em que habitamos.
Veículos voadores circulavam os céus vindo e indo para destinos longínquos. Embora tudo ali parecesse próximo. Extremamente próximo! Os próprios planetas do sistema solar pareciam estar mesmo ali à beira, à distância de um esticar de braços. O espaço entre eles, apesar de enorme, tal como o conhecemos, era ao mesmo tempo curto sem que eu conseguisse explicar como. 
Quase todos estavam inundados de vida. Habitados por criaturas maravilhosas que tinham tanto de magnifico como de assombroso. Existiam, também, mais planetas, todos em comunicação constante devido à proximidade que anulava as nossas leis da física.
Não tinha explicação lógica para a minha visão daquele mundo surreal paralelo com o nosso. Talvez o meu transe me tenha elevado para um estado alterado da mente, onde novos sentidos me permitiam ver o que um humano, na sua ingenuidade, não consegue;
Talvez aquela realidade, que se mistura com a nossa, fosse a mítica quarta dimensão, que os cientistas tanto almejam encontrar em complexas equações matemáticas e de que alguns místicos tanto falam nas suas palestras esotéricas;
Ou talvez, fosse tudo fruto da minha imaginação tomada pela insanidade!
Foi então que senti a energia a atingir-me novamente. Despertei de forma instantânea a meio de um momento banal. Perdi a noção de quando e como aquela imagem utópica aconteceu embora me sentisse totalmente dominado por ela.
Entretanto a visão foi desaparecendo lentamente, desfazendo-se em fragmentos que se vão perdendo na memória. Recordações que se dissipam como o nevoeiro na manhã acabando-se por perder entre o real e a fantasia. 
Não sei se era sonho ou lembrança… 


sábado, agosto 24, 2013

PALAVRAS A TI


Caro amigo (ou amiga) que visitas este recanto.
Escrevo-te estas palavras, não porque tenha algo a dizer-te, mas simplesmente porque quero expressar os meus devaneios bizarros a alguém, não sei quem. Fazer um desabafo desprovido de julgamento alheio, pois só quem nutre por mim verdadeira amizade não me vai sentenciar pelos meus pecados, ou simplesmente pelas minhas acções.
Não sei o teu nome, tu que te perdes nestas linhas, nem conheço o teu corpo. Tanto melhor. Assim não te avalio. Não és um objecto, nem um mero ser físico derreado sobre o peso de estereótipos, preconceitos ou regras pré-concebidas pela nossa sociedade imaculada (ou degenerada)…
És muito mais que isso. És ideias, sonhos, emoções, histórias para contar, objectivos a atingir, lágrimas e conquistas… És um mundo cheio de vida que partilha comigo este momento onde a leitura constrói uma ligação entre os nossos intelectos e o anonimato fortalece o nosso laço.
Raramente me expresso sobre a amizade; talvez porque não me sinta dependente dela; talvez por me poder dar ao luxo de usar a solidão como escolha e esta não ser para mim um duro castigo que a vida impinge. Para mim é uma hipótese de me restabelecer da confusão que as pessoas criam à minha volta com as suas banalidades. 
Não é que me queixe, até porque ter gente à nossa volta é uma bênção. Aqueles que vivem isolados forçadamente sabem dar-me razão. Também passei por essa estrada.
Só que interagir com os outros, ou melhor, estar dependente deles e do seu afecto pode trazer inúmeros dissabores, desilusões e amarguras. Tudo isto porque esperamos demasiado deles, quando não têm a obrigação de nos reverenciar. Por isso escolhi a alienação. Afastar-me da extrema necessidade de afeição. Assim encontrei a liberdade.
No entanto, não deixa de ser estranho que num momento de recolhimento pessoal partilhe contigo, meu amigo, este pensamento transcrito nesta carta. Que nada mais é do que uma troca em que ofereço as palavras e tu a compreensão (ou aceitação).
Agora, a ti, que não sei quem és, deixo-te o meu Bem-haja pelo tempo dispensado e a atenção que me dedicaste. Quem sabe um dia não poderei retribuir…


sábado, agosto 17, 2013

A PEÇA


Foi assim que aconteceu.
Depois de um começo inesperado e grandioso, em que o público ficou abismado com tamanha entrada imponente. Assombrados pela ousadia da primeira cena em que, vinda do nada, a acção começou rápida, empolgante e surpreendente. 
E foi correndo o enredo, entretendo o passar do tempo. Com fantasia, impulsos de energia a emanar dos intervenientes, entre lutas, dramas e paixões. Agarraram aquela história épica com força, como parte da própria vida e entregaram-se sem medo.
Foi sempre a crescer até à apoteose final. A plateia levantou-se em uníssono rendida à encenação. Emocionados ecoaram um ensurdecedor coro de aplausos perante a magnificência do momento.
E assim terminou. 
A cortina voltou a abrir e os actores regressaram ao palco, para com uma vénia ouvirem mais uma vez as palmas a aclama-los num último momento de apreço. Depois retiraram-se para os camarins. Era a altura de descansarem, gozarem o sucesso, celebrarem, para em breve voltarem a abraçar um novo argumento. 
Quanto ao público; uns saíram de imediato já com a mente fora do teatro de regresso às suas vidas; outros foram-se retirando devagar enquanto comentavam a qualidade do espectáculo e os seus maravilhosos pormenores; alguns ainda ficaram sentados a encarar o palco, onde a cortina fechada anunciava a falta de intervenientes. No entanto, aqueles espectadores, mantinham-se no seu lugar, talvez com uma ínfima esperança de que as personagens voltassem para dar continuidade àquela peça de teatro que os transportou, durante algum tempo, para longe da rotina, ainda que no papel de observadores. Eventualmente, também estes vieram embora. Tinha de ser. Nada mais existia ali para eles.
Passado tudo isto, restou a memória, para quem queira lembrar.


sábado, agosto 10, 2013

LINGUAGEM ILUMINADA


A Estrela surgiu no céu antes que o negro da noite tomasse conta dele. Foi a primeira a aparecer enquanto dia se calava e a sua luz se recolhia.
O seu brilho era intenso e de um fascínio hipnotizante, talvez por não existir mais nenhuma plantada no céu nocturno. Ou simplesmente porque era mesmo assim, feiticeira.
A sua beleza iluminava os olhos de quem a olhava. Artistas, poetas, pintores, músicos, gente com desejos e paixões, ou simples pessoas normais que queriam algo mais na vida. Todos paravam a contemplar estrela. Todos ouviram o que ela tinha para dizer. Palavras mágicas cheias de fantasia, de vida, de esplendor. Coisas que só um astro que vive no cosmos, muito para além deste mundo, pode falar na sua linguagem iluminada.
Entretanto a noite tornou-se rainha e a sua escuridão tomou conta dos céus, trazendo consigo muitas mais estrelas, cada uma com a sua luz.
Aquela, a primeira a surgir, pareceu ficar ofuscada, talvez por ser tímida e ter vergonha das outras. Vergonha de fazer os homens sonhar com o seu brilho repleto de emoção, magia e infinito…