sábado, fevereiro 23, 2013

ESCÂNDALO


Escondam as donzelas imaculadas, levem para as crianças com olhos e ouvidos inocentes. Ergam bem alto a bandeira da moral e bons costumes, pois em vós tudo é pudor.
Certifiquem-se que assistem à minha chegada, entre burburinhos indignados.
Sim! Estou a chegar! E comigo trago um exército de escândalo e impropérios para saquear a vossa decência. 
Fujam! Porque eu conheço os vossos pecadinhos, praticados às escondidas, sem que os homens (ou mesmo Deus), os vejam. Mas eles estão em vós. Sente-se o cheiro e os vossos olhares culpados confirmam-no.
Quem se achar superior e viva na ilusão de que me pode julgar, que fique e me venha encarar de frente. Para que, também eu, na minha indecência, possa fazer o meu julgamento com a minha própria lei (ou talvez com a lei de que me acusam). E ter o prazer (amargo) de condenar sadicamente.

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sábado, fevereiro 16, 2013

MARES DOS SENTIMENTOS



Cansei-me da multidão. Da nulidade de ser apenas mais um entre muitos. Transparente, invisível, sem conteúdo. Decidi refugiar-me no profano íntimo de mim mesmo e receber a visita da solidão, velha companheira, conselheira, amante em horas vadias.
– Tantos segredos tenho para te contar minha amiga. – Digo-lhe eu entre um sorriso melancólico. 
– Tantos segredos tenho eu para te revelar pequeno aventureiro. – Responde-me ela como uma ninfa que acaricia um caminhante.
Navegamos os mares dos sentimentos. Descemos ao abismo da tristeza. Subimos a montanha da felicidade. Voamos no céu da sabedoria. Até que o tempo se esqueceu de nós…
A noite trouxe o silêncio de um mundo que se recolhe e também eu me entreguei ao sono. Deixei que a manhã me despertasse com a sua luz sorridente. Volto a ser mais um, levando na bagagem o elixir da diferença. 

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sábado, fevereiro 09, 2013

ENTRE A ROTINA


Sinto um peso em cima do mundo. Como uma sombra que cai sobre os humanos e se entranha na sua vontade. Uma energia negativa, invisível e silenciosa, que se dispersa por entre a rotina.
Está na voz frustrada de quem não sonha. Nos gestos agressivos de quem não ama. Na depressão de quem não tem esperança. Na raiva que cresce com as injustiças. No frio que nos envolve…
Energia que me causa calafrios gélidos e chama pelo monstro que existe em mim, em nós, em tudo… Algo quase tão palpável como a água turva e estática de um lago poluído. Sinto-o não como uma imaginação paranóica, ou premonição oriunda da loucura. É algo concreto, que sinto, que está entre nós. 
Não é um aviso. Até porque não há nada que possamos fazer. É um simples desabafo de quem quer ser feliz.

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sábado, fevereiro 02, 2013

DEVANEIOS



Deixei-me ir com a inercia. Esqueci-me de mim mesmo e adormeci no seu marasmo. O passar do tempo ficou estático sem que me apercebesse e fui ficando transparente. Sem sabor. Desvanecido.
Até ao dia que alguém se lembrou dos infinitos devaneios que existem escondidos em mim. Decidiu seduzir-me com o caos. Aliciado fiquei, pronto a explodir em mil cores intensas. Com ganas de abanar a realidade.
É inevitável voltar a ser eu, tal como a lua que fica cheia no fim e no início de cada ciclo e poderosa reina sobre a noite. Faz-me criar vidas, mundos, tormentas, amores e loucuras. Tudo isto amando a liberdade. 
Banhado por um mar feito de arte. Perdido entre a vastidão do conhecimento. Maravilhado pela melodia da beleza. Renovado, recriado, fonte de energia. Preparado para voar entre a harmonia.

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sábado, janeiro 26, 2013

A VERDADEIRA RESPOSTA



Sonhos, chamam-lhes vocês. Mundos, chamo-lhes eu!
Trevas para alguns, vida para outros, conhecimento para mim!
Mistério inexplicado que me une ao transcendente para além da compreensão. Para além de mim próprio!
Quem sou eu afinal?
Humano… Essa resposta não me satisfaz (embora seja a única que tenha). Tem de haver algo mais. Tenho a certeza que existe algo mais!
As palavras dizem que sim. Os números dizem que sim. A música diz que sim. A beleza dá-me todas as certezas!
Então onde está a verdadeira resposta?
Perdoem-me por continuar a procurar. Se um dia encontrar o que procuro… Ou melhor: Se um dia compreender o que procuro. Dir-vos-ei! (Ou guardarei para mim, como um tesouro sem preço, na segurança desses devaneios a que vocês chamam sonhos…)

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sábado, janeiro 19, 2013

CONHECER



Tu dizes que me conheces. Gostava de saber como podes fazer essa afirmação? Pois eu digo que de mim, pouco ou nada sabes, excepto aquilo que vês. E isso é apenas uma imagem diante os teus olhos que arrasta atrás de si falsos pressupostos. Só isso, nada mais.
Para teres a autoridade de dizer que me conheces, tinhas de entrar no meu íntimo, nos meus sonhos, na minha mente e conheceres todos os seus segredos. E disso, nada sabes. 
Então porque dizes que me conheces? Com a mesma arrogância de quem diz que conhece todos os segredos do cosmos. Com a mesma ilusão de quem se acha dono da verdade absoluta. 
Quando me julgas estás-me a mostrar aquilo que és. Não te estou a julgar de volta, apenas a interpretar as tuas acções. De mim nada sabes. És pequeno, ignorante, néscio, incoerente, desinteressante e estúpido. É tudo isso que és quando me julgas a mim. 
Peço desculpa pela rudeza das minhas palavras. Peço desculpa se a verdade te dói. Mas não tentes preencher a tua vida vazia a avaliar a vida dos outros.

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sábado, janeiro 12, 2013

DEMASIADO SIMPLES



Invoquei uma tempestade tal como um Deus de outras eras. O céu enegreceu com nuvens arrasadoras. Ergui o braço, abri a mão, dei ordem a relâmpagos e trovões que rachassem a noite e abalassem estruturas. Chamei ventos de força devastadora e chuvas impiedosas! Domei energias violentas capazes de assustar qualquer coragem.
Deixei que o som da tormenta manifestasse o meu poder. Eu, que me tornara o dono da semente do caos. Destruidor implacável, insensível ao medo. Arquitecto de incontáveis martírios. 
Por entre os rugidos e uivos daquela intempérie sem sentido, procurei no meu íntimo um pouco de humanidade que me sobrava. Lembrei-me de quem era: mero humano. Submisso aos sentimentos, ao tempo que passa, à carne e ao mundo. Fiquei furioso. Uma raiva extrema entrou em mim fazendo-me soltar um grito irado, de tal maneira que a própria tempestade se afastou temerosa.
Um silêncio leve foi-se chegando, como uma criança curiosa e uma calmaria desceu sobre o mundo. Compreendi a minha missão. Era demasiado simples, portanto, impossível de reparar enquanto se desejam quimeras. Voltei então à minha essência sem o peso de desejos insanos. Pus de lado as tempestades. Cobri-me com a sabedoria fazendo dela minha aliada. E assim, com a Fé dos destemidos lancei-me no meu caminho. 

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