sábado, janeiro 12, 2013

DEMASIADO SIMPLES



Invoquei uma tempestade tal como um Deus de outras eras. O céu enegreceu com nuvens arrasadoras. Ergui o braço, abri a mão, dei ordem a relâmpagos e trovões que rachassem a noite e abalassem estruturas. Chamei ventos de força devastadora e chuvas impiedosas! Domei energias violentas capazes de assustar qualquer coragem.
Deixei que o som da tormenta manifestasse o meu poder. Eu, que me tornara o dono da semente do caos. Destruidor implacável, insensível ao medo. Arquitecto de incontáveis martírios. 
Por entre os rugidos e uivos daquela intempérie sem sentido, procurei no meu íntimo um pouco de humanidade que me sobrava. Lembrei-me de quem era: mero humano. Submisso aos sentimentos, ao tempo que passa, à carne e ao mundo. Fiquei furioso. Uma raiva extrema entrou em mim fazendo-me soltar um grito irado, de tal maneira que a própria tempestade se afastou temerosa.
Um silêncio leve foi-se chegando, como uma criança curiosa e uma calmaria desceu sobre o mundo. Compreendi a minha missão. Era demasiado simples, portanto, impossível de reparar enquanto se desejam quimeras. Voltei então à minha essência sem o peso de desejos insanos. Pus de lado as tempestades. Cobri-me com a sabedoria fazendo dela minha aliada. E assim, com a Fé dos destemidos lancei-me no meu caminho. 

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sábado, janeiro 05, 2013

E OS OUTROS?



Às vezes acho que sou uma personagem. Alguém que a minha mente fantasiosa criou num dos seus devaneios. Como se fosse uma peça moldada para se ajustar ao puzzle que é o mundo para me poder encaixar nele. 
Se olhar em volta, poucos são aqueles que realmente são sinceros em relação a si mesmos. Máscaras chamam-lhe eles, para se tentarem adaptar e encontrar um lugar onde pertencem. Sinceramente não encontro grandes diferenças.
No meio de tudo isto estou eu, o verdadeiro, em busca de mim mesmo. Demanda solitária. Talvez por isso crie aquilo que sou, tentando ser simples num imenso e complexo reino de criatividade. 
E os outros quem são?
Faço essa pergunta de quando em quando seduzido por aquilo que habita no intimo de cada ser. As respostas são intermináveis, inconstantes e imprevisíveis. Sim. É isso! O meu lugar é questionar. Surge então a dúvida: Serei o único?

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sábado, dezembro 29, 2012

QUERIDO DIÁRIO



Hoje sinto-me triste. Parece que o mundo inteiro desabou em cima de mim. Falta-me a vontade para continuar e a solidão é quebrada apenas pelas lágrimas que me caem pelo rosto.
Hoje sinto-me feliz. Parece que o universo tinha uma boa noticia guardada para me dar. Tenho novas ideias e novos planos. Estou cheio de energia e esperança não me falta para seguir em frente.
Querido diário, hoje sinto-me apático. Não tenho entusiasmo nem tristeza, apenas existo. Observo os altos e baixos da vida e verifico que nada é constante. Mas congratulo-me porque a história é rica e as tuas paginas estão cheias de aventuras, com pessoas de todos os tipos, ódios, amores, triunfos e uma mão cheia de loucuras! E mesmo no marasmo de um dia de indiferença, afirmo com toda a certeza: Gosto de viver :)

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sábado, dezembro 22, 2012

CORRENTES



O que é que me prende?
A minha própria condição humana! Queria voar, brincar com as estrelas, criar universos, conhecer todos os segredos, domar o infinito…
Porque inventaram a divindade? 
Para que eu viva numa prisão de inveja por algo inalcançável… 
Perguntam o que me prende? 
Eu mesmo. A minha imaginação, por mais ilimitada que seja!
Quem me dera ter a liberdade dos simples…

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sábado, dezembro 15, 2012

GRANDEZA



De que vale dizer que a chuva é depressiva? Não é isso que a vai parar...
De que vale queixar-me da tristeza? Não é isso que a vai destruir...
De que vale tentar insurgir-me contra a natureza, quer do mundo, quer de mim mesmo? Cabe-me a mim aceitar que tudo é vida e eu sou pequeno comparado com todo o resto. Seja! No entanto isso não me impede de sentir momentos de grandeza, qual soberano perante o seu império, qual herói perante uma conquista! Pois os pequenos são donos das coisas simples e na simplicidade existe uma imensidão de virtudes.
Portanto, que caia a chuva. Não a posso mandar parar. Amanhã raiará o sol e eu com ele. Saboreando o que é simples. Navegando a calma do momento. Recolhendo as recompensas que surgem na humildade. Sendo triunfante. Na grandeza da minha pequenez.

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sábado, dezembro 08, 2012

PELE ARREPIADA



Cheira-me a caos! 
Tenho gosto a vida na minha boca! 
Oiço incontáveis energias em choque violento! 
Sinto calor e calafrios de prazer a atravessar o meu corpo raivoso!
Vejo os teus olhos brilhantes a chamarem por mim por entre o desejo!
Saboreio o suor, salgado, na tua pele arrepiada e sigo o seu caminho até à porta dos teus lábios carnudos!
Deixo que os nossos dentes ferozes mordam, marquem, magoem, onde a dor se mistura com prazer entre gemidos desprovidos de pudor!
Todos os nossos sentidos, físicos e etéreos, perdidos num emaranhado de sensações extasiantes que nos empurram um para o outro!
E nós perdemo-nos neste limbo entre o animal e a luxúria, entre um desejo instintivo da carne humana e um poema erótico escrito com rimas proibidas!

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sábado, dezembro 01, 2012

RASTO DE LUZ



Os potentes motores rugem como mil trovões em simultâneo. O seu som toma conta da terra impondo respeito. A nave, filha da sabedoria humana, escala os céus em direcção às estrelas, onde o cosmos parece infinito. 
Sobe, aventureira, imponente, afastando as nuvens que, temerosas, lhe abrem caminho. Atrás de si deixa o rasto de luz que a combustão provoca, tal como um trilho para o infinito. Segue destemida, desafiando a sabedoria de Deus, sem medo da distância que o espaço, frio e vazio, impinge.
E nesse deserto negro, salpicado de estrelas brilhantes, vivem perguntas à espera de respostas. Que mundos coloridos se escondem entre o espaço e o tempo? Que vidas pensativas existem para lá da nossa imaginação?
Vai, nave sem medo, junto com o meu pensamento, para longe do meu mundo, entre as entranhas do universo. Leva contigo a minha voz e um pouco da minha loucura nessa tua viagem pelos segredos da existência.

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