sábado, julho 14, 2012

ENTRETANTO


Não existe poesia quando o cansaço toma conta de mim. Às vezes acontece e quando assim é, não consigo procurar beleza no mundo. Deixo que a apatia me massaje o intelecto. Os objectivos coloco-os de parte, depois de me entregar nos braços do repouso volto para buscá-los.
Entretanto passam-se sonhos por mim. Oiço-os chamarem-me mas não tento alcança-los. Fico apenas entregue à inercia de quem sente fadiga e caio no meu adormecer.
Mas sei que há um amanhã, um acordar, um viver e é nessa estrada que está o meu destino. Um mundo de conhecimento onde o belo é soberano. É para aí que sigo confiante, ainda que pelo meio faça uma pausa para descansar.


sábado, julho 07, 2012

BELEZA



Senhoras e senhores! Bem-vindos ao meu mundo grotesco! Aqui, a vossa noção de "normal" é virada do avesso e transformada em bizarro.
Podem virar a cara para o lado, fingir que não vêem, tentar ignorar. Ou podem ficar por aqui a alimentar a vossa curiosidade mórbida!
Membros amputados, disformes, insensíveis e parados. Aqui, o músculo mais forte é o cérebro, cheio de força imensa, imbatível e incapaz de se resignar. Vocês têm algo assim?
E aquilo a que chamam "beleza", está no nosso coração. Sim, porque aqui todos temos um, onde não existe maldade, nem agressividade. Ou talvez sim. Mas ficam guardadas para outra altura.
Aqui, no meu mundo, todos sobrevivemos no meio do caos. O nosso normal é o vosso aberrante. A nossa força é a vossa fraqueza. A nossa beleza está na própria vida, saboreada, partilhada e vivida.
Senhoras e senhores, somos isto, nada mais! Sabemos quem somos e o que queremos. Se quiserem podem ficar. Sois todos bem-vindos, venham de onde vierem, basta virem por bem sem preconceitos.
Se virarem a cara, não temos nada para vocês. Sigam o vosso caminho, não há beleza nem vida em vós!
Agradecido.


sábado, junho 30, 2012

LINHA DO DESEJO



Sabes aquele momento em que o desejo toma conta de nós e tudo se torna sensualidade?
Invade-nos como uma corrente eléctrica que se apodera dos nossos instintos. Deixa a nossa racionalidade calada, para dar lugar a novos sentidos que anseiam apenas deleite. 
Uma vontade devastadora de te beijar a boca enquanto te arrasto para mim. As mãos descontroladas percorrem o teu corpo e com raiva te despem para que a nudez nos liberte. A transpiração reluzente que anuncia um fogo interno que arde ansioso no nosso íntimo. 
O sabor, o cheiro, o morder, o marcar, a dor que se transforma em prazer, ofegantes, animais, insanos, carnais, delinquentes, artistas soberanos da luxúria…
Tudo se torna novo cada vez que cruzamos a linha do desejo. O mundo fica para trás. Porque quando nos amamos sem pudores, entregues à ousadia, chocam entre nós incontáveis sensações de prazer carnal e altivez espiritual. Dando lugar a uma guerra de estrelas onde o caos é gerado, para logo a seguir, dar à luz um novo universo…

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sábado, junho 16, 2012

DONO DA MINHA CRIAÇÃO



O doce prazer da escrita. Grandioso refugio feito de palavras que nascem directamente do nosso anseio de criar. Onde mundos surgem, corações sentem, vidas nascem, proliferam e desafiam as leis da realidade. A nossa realidade mundana, sublinhe-se. Pois no extremo da caneta quem dita as leis é aquele que escreve. 
É nesse momento que sou dono daquilo que transcrevo para papel. Fantasias e devaneios que brotam do meu intimo sonhador para desaguar num mar de frases desafiantes. Quando isso acontece torno-me rival dos deuses da criação, para me tornar eu, também criador. 
Pouco me importa que digam que o universo é infinitamente maior do que as minhas palavras. Será que é maior que a minha imaginação, sonhos e sentimentos? Coloco as minhas dúvidas. Alguém que seja louco o suficiente (ou consciente em demasia) me venha provar o contrário!
Até lá estou aqui. Dono da minha criação. Entre a arrogância e o orgulho de quem desafia o universo e a humildade de quem partilha os seus sonhos com quem também deseja sonhar da mesma forma.


sábado, junho 09, 2012

DIREITO



Não me tirem o direito de amar… 
Tirar a alguém o direito de amar e de ser amado, é o mesmo que lhe tirar o direito de viver! Há muitos que o querem fazer. E se assim é, não vale a pena pregar valores, moral e bons costumes, pois é tudo mentira.
Se tirarem a alguém o direito de amar, estão a dar-lhe o dever de odiar! E se o amor move montanhas, o ódio certamente as destrói! 
Aqui fica o recado: Se impedirem alguém de amar, preparem-se para receber o seu ódio e por consequência, a vossa destruição…

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sábado, junho 02, 2012

ALEGORIA


Ela abriu a porta, timidamente e deparou-se com a sala a meia-luz. Baixou o rosto. Não se sentia com coragem para deixar que reparassem no seu olhar. Revelava demais sobre o seu íntimo.
Caminhou lentamente, cabisbaixa, até à poltrona, que mais se assemelhava a uma espécie de trono, situada no outro extremo da divisão. Nela sentava-se uma figura masculina, de porte imponente e feições indecifráveis.
Ao chegar, receosa, perto do homem, ele perguntou:
- Está feito, Sonolenta?
Ela não respondeu. Manteve os olhos baixos e abriu a sua bolsa. Tirou de lá algo embrulhado em panos, que pelo aspecto já seriam muito antigos. Foi desdobrando com cuidado e logo se revelou o seu conteúdo: Um punhal feito de ouro, adornado com uma escrita antiga. Entregou-o cautelosamente aquele personagem, que o aguardava silencioso.
Ele pegou no artefacto dourado e esboçou um sorriso, acariciando o objecto.
- Perfeito. Bom trabalho, Sonolenta. – Disse, visivelmente satisfeito com a sua enviada.
Ela fez uma pequena vénia, deixando escapar um sorriso envergonhado. E sem nunca levantar o olhar dirigiu-se novamente para a porta.
- Sonolenta! – Chamou o homem quando ela estava já de costas e se preparava para sair.
Ao ouvir o seu nome voltou-se, levantando pela primeira vez o rosto, expondo os seus olhos sonhadores. Brilhavam, como se uma súbita confiança se tivesse apoderado de si. – Sim? – Respondeu. 
- Mantém-te acordada. – Disse-lhe ele, num tom de conselho.
Ela anuiu e saiu. Um certo orgulho tinha nascido em si. Da mesma forma que compreendia agora melhor, a força que encerrava no seu intimo.

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sábado, maio 26, 2012

ENCONTRO



Vi um Deus de outras eras, a descer do céu com lentidão. Tocava uma melodia alegre numa flauta mágica. Acho que a música reflectia aquilo que sentia por voltar ao nosso mundo.
Nós, que o escutávamos, iniciamos uma dança sem coreografia, ao som das suas notas encantadas, contagiados pelo seu entusiasmo. Tudo se tornou num imenso festejo enquanto saudávamos a visita daquele ser.
Mas, aos poucos, a melodia da sua flauta começou a tornar-se mais triste e brilho do seu olhar foi perdendo intensidade. Este já não era o seu mundo. Ele era apenas uma recordação. A tristeza começou a tomar conta de si…
Foi assim durante algum tempo, até que todos deixamos de dançar e o olhávamos. Ele sorriu então. Apercebeu-se que jamais seria esquecido e viveria sempre nas histórias a seu respeito. Voltou então a tocar aquela melodia alegre, para que dançássemos e seguiu o seu caminho, para conquistar novos mundos.
Eu vivi aquele encontro, talvez em sonho, mas senti-o real…

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