sábado, junho 16, 2012

DONO DA MINHA CRIAÇÃO



O doce prazer da escrita. Grandioso refugio feito de palavras que nascem directamente do nosso anseio de criar. Onde mundos surgem, corações sentem, vidas nascem, proliferam e desafiam as leis da realidade. A nossa realidade mundana, sublinhe-se. Pois no extremo da caneta quem dita as leis é aquele que escreve. 
É nesse momento que sou dono daquilo que transcrevo para papel. Fantasias e devaneios que brotam do meu intimo sonhador para desaguar num mar de frases desafiantes. Quando isso acontece torno-me rival dos deuses da criação, para me tornar eu, também criador. 
Pouco me importa que digam que o universo é infinitamente maior do que as minhas palavras. Será que é maior que a minha imaginação, sonhos e sentimentos? Coloco as minhas dúvidas. Alguém que seja louco o suficiente (ou consciente em demasia) me venha provar o contrário!
Até lá estou aqui. Dono da minha criação. Entre a arrogância e o orgulho de quem desafia o universo e a humildade de quem partilha os seus sonhos com quem também deseja sonhar da mesma forma.


sábado, junho 09, 2012

DIREITO



Não me tirem o direito de amar… 
Tirar a alguém o direito de amar e de ser amado, é o mesmo que lhe tirar o direito de viver! Há muitos que o querem fazer. E se assim é, não vale a pena pregar valores, moral e bons costumes, pois é tudo mentira.
Se tirarem a alguém o direito de amar, estão a dar-lhe o dever de odiar! E se o amor move montanhas, o ódio certamente as destrói! 
Aqui fica o recado: Se impedirem alguém de amar, preparem-se para receber o seu ódio e por consequência, a vossa destruição…

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sábado, junho 02, 2012

ALEGORIA


Ela abriu a porta, timidamente e deparou-se com a sala a meia-luz. Baixou o rosto. Não se sentia com coragem para deixar que reparassem no seu olhar. Revelava demais sobre o seu íntimo.
Caminhou lentamente, cabisbaixa, até à poltrona, que mais se assemelhava a uma espécie de trono, situada no outro extremo da divisão. Nela sentava-se uma figura masculina, de porte imponente e feições indecifráveis.
Ao chegar, receosa, perto do homem, ele perguntou:
- Está feito, Sonolenta?
Ela não respondeu. Manteve os olhos baixos e abriu a sua bolsa. Tirou de lá algo embrulhado em panos, que pelo aspecto já seriam muito antigos. Foi desdobrando com cuidado e logo se revelou o seu conteúdo: Um punhal feito de ouro, adornado com uma escrita antiga. Entregou-o cautelosamente aquele personagem, que o aguardava silencioso.
Ele pegou no artefacto dourado e esboçou um sorriso, acariciando o objecto.
- Perfeito. Bom trabalho, Sonolenta. – Disse, visivelmente satisfeito com a sua enviada.
Ela fez uma pequena vénia, deixando escapar um sorriso envergonhado. E sem nunca levantar o olhar dirigiu-se novamente para a porta.
- Sonolenta! – Chamou o homem quando ela estava já de costas e se preparava para sair.
Ao ouvir o seu nome voltou-se, levantando pela primeira vez o rosto, expondo os seus olhos sonhadores. Brilhavam, como se uma súbita confiança se tivesse apoderado de si. – Sim? – Respondeu. 
- Mantém-te acordada. – Disse-lhe ele, num tom de conselho.
Ela anuiu e saiu. Um certo orgulho tinha nascido em si. Da mesma forma que compreendia agora melhor, a força que encerrava no seu intimo.

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sábado, maio 26, 2012

ENCONTRO



Vi um Deus de outras eras, a descer do céu com lentidão. Tocava uma melodia alegre numa flauta mágica. Acho que a música reflectia aquilo que sentia por voltar ao nosso mundo.
Nós, que o escutávamos, iniciamos uma dança sem coreografia, ao som das suas notas encantadas, contagiados pelo seu entusiasmo. Tudo se tornou num imenso festejo enquanto saudávamos a visita daquele ser.
Mas, aos poucos, a melodia da sua flauta começou a tornar-se mais triste e brilho do seu olhar foi perdendo intensidade. Este já não era o seu mundo. Ele era apenas uma recordação. A tristeza começou a tomar conta de si…
Foi assim durante algum tempo, até que todos deixamos de dançar e o olhávamos. Ele sorriu então. Apercebeu-se que jamais seria esquecido e viveria sempre nas histórias a seu respeito. Voltou então a tocar aquela melodia alegre, para que dançássemos e seguiu o seu caminho, para conquistar novos mundos.
Eu vivi aquele encontro, talvez em sonho, mas senti-o real…

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sábado, maio 19, 2012

AUTORIDADE


Qual é o segredo do sofrimento?
Só mesmo aqueles que sofrem podem responder a esta pergunta porque têm autoridade para tal.
Existem aqueles que acham que sofrem e inventam sentidos deturpados, carregados de um certo positivismo narcótico.
Existem também aqueles que do sofrimento sabem apenas que existe, mas falam dele como se mestres fossem no assunto. Enumerando mil e uma razoes. Filosofam sobre ficar mais forte ou mais sábio. Prontificam-se sempre a julgar quem os contradiz, especialmente se for um sofredor… Mas que sabem eles disso? Mais valia estarem calados. A única resposta verdadeira que podem dar é o de não quererem sofrer.
Mantém-se a questão. Com a resposta calada na boca dos que a conhecem, tendo o fardo de nunca a poderem revelar, sob pena da incompreensão...


sábado, maio 12, 2012

BAIXO OS BRAÇOS



Às vezes sinto uma vontade imensa de desistir. Baixo os braços e deixo-me cair num fundo e negro abismo. Cair, cair, cair… Até que, quando estou prestes a bater no fundo, Deus (ou o diabo, poderão alguns dizer) ilumina-me com energia vital. E eu transformo-me numa força incompreensível. Numa criatura com asas na mente. Um guerreiro alado dono da luz e das trevas, com as quais foi abençoado.
Quem poderá compreender esta energia mística que existe em mim? Podem imaginar, escrever sobre ela, debater, mas nunca compreender. É algo divino esta vontade, suponho eu, mesmo correndo o risco de ser herege…

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sábado, maio 05, 2012

ASSIM ME FOI CONTADO


As bruxas saíram de casa sorrateiras, ao fim do entardecer. Onde, no início do anoitecer marcaram o encontro. Foram caladas, no silêncio, despercebidas, para que não as perseguissem com a intolerância da inquisição.
Emaranharam-se por entre a mata dentro, por trilhos que só elas conheciam, em busca de um círculo mágico que a natureza lhes brindava. Iam, apressadas, sussurrando ladainhas imperceptíveis.
Ninguém sabia o nome delas. Naquele momento deixavam de ser simples mulheres, para passar a incutir medo em quem delas ouvia falar.
Aconchegadas pelo crepúsculo praticaram as suas artes, ocultas, tenebrosas. De que trataram naquele momento, apenas se sabiam rumores, ditos com receio entre comadres alcoviteiras.
Assim se foram acumulando as suas histórias passadas de pais para filhos, avós para netos, ano para ano, década para década, desaguando nos dias de hoje. Onde estarão elas agora? Será que, tal como as suas histórias, sobreviveram de geração em geração? Questiono-me, enquanto olho as estrelas que na noite desenham os segredos do universo…