sábado, dezembro 20, 2008

CONVERSA DE NATAL



- Estás no meio de um cigarro pensativo? – Perguntou ela.
- Sim. – Respondeu ele.
- Em que pensas?
- Em nada… Ou talvez em muita coisa… Depende do ponto de vista, acho eu. – Estava debruçado sobre a sua varanda, fumando um cigarro lentamente, enquanto observava as pessoas que passeavam pela aquela rua da cidade, devidamente enfeitada.
- A cidade está movimentada.
- Sim. Todos os anos é assim. Não varia muito.
Nesse momento o som familiar do telemóvel ao anunciar uma nova mensagem ouviu-se. Calmamente ele pegou no aparelho para ler o conteúdo: “Oh oh oh, estamos em tempo de festa e…” Não acabou de ler e de forma quase automática apagou a mensagem.
- Quem era?
- Nem reparei. Mais alguém a desejar Festas Felizes.
- Também já recebi várias do género. E tu, não vais desejar Bom Natal?
- Mais logo. Escrevo uma coisa qualquer e envio para todos da lista.
- Provavelmente vão fazer como tu e apagar a mensagem.
- É bem possível. –
Disse ele soltando uma pequena gargalhada.
- Não te incomoda saberes isso?
- Nada.
- Sabes, tenho saudades dos velhos postais de Boas Festas, que se enviavam pelo correio.
- Estás muito nostálgica hoje… -
Disse ele olhando para ela.
- Talvez… Mas o Natal tinha mais piada antigamente.
- Bem vinda à era da tecnologia. Já ninguém se interessa por esses postais. Haja é saldo no telemóvel.

Lá em baixo a azafama continuava. Passavam famílias aparentemente felizes. Pessoas com sacos carregados, crianças que gritavam, berravam e corriam. Uns pareciam apressados, outros passeavam calmamente. O cigarro dele tinha terminado, olhava agora novamente para baixo.
- Que observas? – Perguntou ela.
- Tudo um pouco. – Respondeu ele de forma vaga.
- Já reparaste nas pessoas?
- Sim. Devem andar nas compras de Natal.

- Algumas… Repara bem. Apesar de ser muita gente, parecem não reparar uns nos outros.
- Nunca reparam. Cada pessoa, grupo ou família é como uma ilha isolada, perdidos na sua vidinha. Porque haveriam de reparar nos outros!?
- Olha com atenção, estás a ver aquele senhor.
– Disse ela apontando para um homem já de alguma idade, que caminhava calmamente por entre as pessoas.
- Sim. Que tem?
- Olha bem para ele. Tem o olhar triste. Parece que está passear, mas na verdade está a observar os outros. Possivelmente porque é uma pessoa sozinha, sem família, sem amigos, sem ninguém. E repara, não é o único com o mesmo comportamento. –
Disse ela apontando para mais algumas pessoas que passavam despercebidas por entre a multidão.
- São pessoas solitárias, a cidade está cheia delas… Toda a gente sabe, toda a gente finge não saber.
Ela baixou os olhos, perante a resposta. – “É triste…” – Pensou. Mas não foi capaz de dizer algo. Na cidade a solidão era mais evidente. O rosto daquelas pessoas tristes era doloroso para quem era de fora.
O som do telemóvel a assinalar nova mensagem fez-se ouvir novamente. Parecia ter vindo no momento certo para quebrar o peso no coração que sentia. Novamente ele não leu a mensagem até ao fim e apagou-a.
- O tempo está estranhamente quente para esta altura do ano. – Disse ela.
- Ainda bem. Gosto que haja tempo quente no Natal.
O sol de Inverno brilhava com bastante intensidade, atingindo em cheio aquela varanda, transformando aquele meio de tarde num clima de Verão.
Apesar do calor, ela, no seu coração, não conseguia deixar de pensar em toda a solidão e toda a pobreza que existia e como esses sentimentos são frios. Na altura do Natal fazem festas solidárias, angariam dinheiro, roupas e comida e o resto do ano? Pensou naquilo que já sabia:
“Temos sorte por ter família, amigos, dinheiro suficiente para conforto, prendas e pequenos luxos que achamos tão normais, que nos esquecemos que são um luxo. Depois damos um pouco do que nos sobra a uma causa qualquer e achamos que já contribuímos o suficiente… Na realidade somos hipócritas…”
- O Natal não devia ser assim…
- Disse ela.
- Então como deveria ser? – Perguntou ele.
- …
Ela não foi capaz de responder.
A tarde já estava a terminar e já se começava a sentir o frio que a noite iria trazer. Ele abraçou-a carinhosamente e ela sentiu-se aconchegada no calor dos seus braços fortes. Ela sentiu-se feliz.
- Vamos para dentro. – Disse ele.
Ela acenou com a cabeça concordando. Os dois entraram para o conforto do apartamento entre brincadeiras de um casal apaixonado. Lá dentro o calor e a alegria, deram lugar ao esquecimento daquela conversa, daqueles sentimentos, daquela gente triste e solitária… Afinal era Natal...










Within Temptation - Gothic Christmas


sábado, novembro 22, 2008

DANÇAR CONTIGO




Moça
Dedico-te uma música estranha
Como é para ti tem de ser estranha
Mas não faz mal
Dançamos na mesma ao som da loucura
Hoje não me apetece pensar
Quero dançar contigo
Excêntrico e extravagante
Escandalizar quem passa na rua
Velhas, pudicas ou beatas
Se for preciso até o padre
Não quero saber
Hoje o mundo é meu
E quero dançar contigo









HIM - Rendezvous With Anus

sábado, novembro 08, 2008

NEVOEIRO DA MANHÃ




Vejo fantasmas de antigos marinheiros. Viajaram por muitas terras e lugares, mas agora estão perdidos.
Fazem a sua última viagem, velejando eternamente em direcção ao pôr-do-sol. Enquanto os seus esqueletos gastos pelo tempo, vagueiam sem rumo pelo convés de um navio esquecido. Ao som hipnótico do canto das sereias. Desejando ardentemente que os seus corações fiquem livres, levados pelo embalar das ondas, numa esperança vã.
Procuram um novo destino que não passa de uma miragem, fazendo-os navegar pelo esquecimento. Procuram esse destino tão arduamente que não reparam nos mistérios do universo, que lhes são revelados em cada maré, como sonhos que vão e vêem.
Serei eu também um destes marinheiros? Navegando perdido pelos mares da vida, buscando uma quimera de fantasia? Enquanto não reparo nas cores do oceano de vida que me rodeia…
Serei…
Talvez um sonho, um acordar!
Sim, acordar. Deixar que este sonho de espectros de marinheiros se dissipe, tal e qual o nevoeiro numa manhã.
Se houver viagem, que siga a sua rota.
Se houver segredos e mistérios, que os descubra e repare neles.
Se houver destino, que o alcance.






Iron Maiden - Rime Of The Ancient Mariner
(Part 1)


(Part 2)

sábado, outubro 25, 2008

UM MUNDO NOVO



Hoje decidi escrever algo. Não tinha grande inspiração mas tinha vontade. E muitas vezes a vontade supera a inspiração. Foi então que reli muita coisa do que tinha escrito e a certa altura um pensamento invadiu a minha mente: “Mais do mesmo”. Ao fim de algum tempo as palavras pareciam-me repetidas, apesar dos temas mudarem, soava-me tudo de forma semelhante. Era como um círculo de assuntos que continuava a chegar ao mesmo início. Tristeza, paixão, fantasia, amor, ódio, raiva, melancolia, loucura, prazer, erotismo, desejo, rebeldia, filosofias, ideais… Sobre tanta coisa tinha escrito, mas acabava sempre por voltar ao mesmo. Tudo diferente, tudo igual. Tudo no mesmo mundo.
Mas afinal, este é o meu mundo. Sobre que mais havia eu de escrever?...
Fez-se silêncio na minha mente. O meu espírito não deu resposta a esta pergunta.

No entanto essa resposta existe. Não é uma opção, é um desejo: “Um mundo novo”…
Eu era o mesmo que havia escrito aquelas coisas, que agora me pareciam gastas, sem vida. Sim, eu era o mesmo. Mas algo havia mudado para que desejasse um mundo novo. Talvez a música no meu coração estivesse mais negra. Talvez… Mas a minha música nunca foi muito branca.
Agora é a parte em deveria dizer: “Se calhar a música no meu coração precisa de ficar mais branca”. Lamento desapontar, mas já provei dessa água e de contos de fada fartei-me rapidamente.
Escapa-me o pensamento não sei para onde…
Reparei que uso muito as reticências, porque atrás das reticências pode vir um infinito… (Bonita frase não é? Já a disse a alguém, mas não surtiu grande efeito!) Mas neste caso não vem infinito nenhum. Pelo menos para já! Por agora vem um vazio.
Que posso eu fazer, para alem deste desabafo? Esperar! Dar tempo ao tempo! Ficar calado.

Talvez não passe de um devaneio. Mais um. E amanhã tudo passe. Talvez chegue à conclusão de que afinal, quando voltar a ler isto, tinha inspiração, não vontade.








RED HOT CHILI PEPPERS - HAVANNA AFFAIR

sábado, outubro 18, 2008

SEM PRESSA



Luna…
Penso em ti…
Tento não pensar,
Mas é inevitável,
Que o meu pensamento vadio
Vá parar a ti…
Chamo o teu nome
Numa estranha telepatia,
Que me mostra o teu rosto,
Sorrindo por quase nada,
Escondendo o teu olhar tímido…
Tens o mundo pela frente.
E sem esconder o meu desejo
De ser teu companheiro de aventura,
Mesmo num devaneio qualquer,
Continuo esquecido
Por entre pensamentos vagabundos
Que me levam a ti.
Não sei porquê tu!?
Talvez a inocência…
Talvez a descoberta…
Talvez…
Não sei o quê!
Talvez sejam desejos secretos…
Todos os humanos os têm.
Suponho que eu não seja excepção!
Então que passe o tempo devagar.
Não tenho pressa de deixar este devaneio.
Pois com toda a certeza,
O tempo…
Sempre o tempo…
Faz-me esquecer de ti.

sábado, outubro 11, 2008

CALADO, QUIETO, PARADO


Decidi ficar calado.
Podia falar mas preferi ficar em silêncio
Deixei que os meus olhos falassem
Aquilo que a minha boca calou
Decidi também ficar quieto
Podia matar-te mas preferi ficar parado
Deixei que os meus olhos assassinassem
Aquilo que as minhas mãos não abateram
Decidi esperar
Podia agir mas preferi ficar à espera
Deixei que os meus olhos agissem
Por aquilo que o meu corpo esperou
Decidi olhar-te de frente
Podia odiar-te mas preferi olhar-te nos olhos
Deixei que estes mostrassem
O ser detestável que és…

sábado, outubro 04, 2008

DESEJO CUMPRIDO


Cheiras a morte...
Desejaste a vida
Mas a vida que desejaste
Está morta
Uma morte bruta
Nefasta, putrefacta
Fria, desgastante
E choras
Para aliviar a dor
Choras
Tal como antes
Com peso nas costas
E coração apertado
Choras
Porque o teu desejo se cumpriu...





Metallica - Until It Sleeps