
- Sabes? Não gosto do Inverno, principalmente das noites…
- Porquê?
- Às vezes acordo durante a noite e o seu silêncio gélido enche-me de uma tristeza fria.
- Como assim?
- A solidão da noite de Inverno é tão fria, que sinto…
- Sim…
- Talvez medo…
- Medo…
- Sim. Medo do vazio com que aquela solidão me preenche.
- É assim tão forte?
- Sim. Fecho os olhos e cubro-me com os cobertores pesados. Chego mesmo a cobrir a cabeça. Mas apesar de estar quente debaixo dos cobertores, eu sei que por detrás das minhas pálpebras fechadas e cobertores quentes, a noite, fria, vazia e solitária continua lá.
- Que pensas nessas alturas?
- Não sei, está tudo demasiado vazio, espero apenas que o sono chegue novamente…
- E chega?
- Não.
- Então…
- Por vezes ganho coragem e abro os olhos, tentando desvendar as silhuetas que se evidenciam por entre a escuridão.
- Que vez nessas alturas?
- Apenas contornos que me revelam um vazio…
- Compreendo. A tua imaginação não funciona. O teu mundo fica completamente vazio…
- Sim, acho que é isso…
- A única coisa de que tens medo… O vazio…
- Sim, o meu único medo…
- Compreendo…
- Guardo este segredo, tal como uma criança guarda segredo dos monstros que imagina durante a noite… - Sim. Os teus fantasmas…
- Sim…
- Não te preocupes. A manhã vai acabar por chegar e a sua luz vai trazer consigo um mundo preenchido…
- Eu sei…
- Mas a noite de Inverno vai continuar lá, fria e vazia…
- Eu sei…
Rádio Macau - Anzol
(Um classico é sempre um classico)